
Escrevo de Varsóvia, capital da Polônia, caixa de ressonância da guerra desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022. Estou aqui a convite da União Europeia (UE), como parte de um grupo de jornalistas da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Além de ZH, entre os veículos brasileiros participam da delegação Valor Econômico e Veja.
Estamos a cerca de 180 quilômetros, em linha reta, da fronteira ucraniana, em Dorohusk-Yahodyn, um dos pontos mais usados, perto de Lublin, para cruzar para o país atacado. Até Medyca-Shehni, por onde entrei de trem nos primeiros dias do conflito, são cerca de 320 quilômetros.
Neste domingo (7), Kiev, a capital ucraniana, sofreu seu maior bombardeio aéreo desde o início da guerra. Foram 810 drones e 13 mísseis de cruzeiro lançados contra a metrópole. Segundo autoridades da Ucrânia, quatro pessoas morreram, entre elas um bebê.
A Polônia, a última fronteira da Otan diante do país em guerra, tem sentido o reflexo direto das ações de Vladimir Putin. Sua história, diante da ameaça russa, é muito parecida com a da Ucrânia, o que conecta diretamente Varsóvia aos medos de Kiev. Mas este é um tema para outra coluna.
Quero me ater a uma conversa muito esclarecedora que eu e os demais colegas da delegação tivemos, na noite deste domingo (7), com o professor Adam Eberhardt, do Centre for East European Studies da Universidade de Varsóvia. Segundo ele, esta chuva de mísseis sobre Kiev — a segunda em menos de duas semanas; a última, até então, havia atingido o prédio da UE — tem como objetivo não só a destruição material de edificações oficiais (e civis): o alvo principal seria psicológico.
— Moscou bombardeia civis para forçar a população a pedir a paz ao governo. Quem aguenta viver permanentemente em clima de guerra? — questionou.
Segundo Eberhardt, o objetivo do Kremlin não é apenas a conquista de território. O que está em jogo é a mudança na arquitetura de segurança da Europa, uma tentativa de recompor o espaço de influência da antiga União Soviética e de afastar países como a Polônia da órbita da Otan.
— A Rússia não quer apenas cidades, quer manter a guerra como modo de existência. O regime se alimenta dela — explica.
A estratégia, contudo, expõe contradições. Putin, herdeiro da tradição da KGB (atual FSB), insiste em mostrar força mas, na avaliação do analista, revela-se um estrategista frágil, que erra ao medir tanto a resiliência ucraniana quanto a resposta europeia. Foi a UE, lembra Eberhardt, que sustentou financeiramente a resistência de Kiev. Não foram os Estados Unidos. Foram os europeus que pagaram o preço.
No campo interno, a Rússia transformou-se em uma cleptocracia totalitária, em que o Estado se confunde com o enriquecimento da elite política.
— Já não tratamos como um regime autoritário, totalitário. O regime consome 40% do PIB em defesa — diz.
Por essa lógica, a Rússia viveria um modo de guerra ("war mode"), que representa junto à opinião pública do país uma guerra por existência, capaz de ocultar problemas graves como a alta inflação.
O conceito de cleptocracia, vale lembrar, designa um governo em que os que ocupam o poder usam o Estado para se apropriar de recursos e perpetuar sua dominação.
Para Eberhardt, a ameaça não se limita à Ucrânia. Ao questionar os princípios da ordem internacional, da soberania e da autodeterminação dos povos, a Rússia desafia todo o sistema construído após a Segunda Guerra Mundial.
— É uma ameaça não apenas à Ucrânia, mas ao direito internacional como um todo.
Nesse cenário, não é impossível que Putin busque abrir novas frentes — como nos países bálticos — para testar a coesão da Otan.
A Polônia sente essa tensão de forma direta. Primeiro país a apoiar militarmente a Ucrânia — oferecendo tanques e mantendo sua embaixada em Kiev quando todos os outros diplomatas se retiraram —, além de abrir as portas para refugiados, convive agora com as consequências de longo prazo da guerra. Há 2,4 milhões de ucranianos vivendo em território polonês. Se, por um lado, a chegada de refugiados movimentou setores da economia (muitos são motoristas de aplicativo, por exemplo), por outro, despertou ressentimentos.
Há quem pergunte por que tantos ucranianos, sobretudo das classes mais abastadas, preferiram permanecer aqui em vez de lutar pelo seu país. Outros olham com desconfiança para o dinheiro que circula e criticam o estilo de vida de alguns recém-chegados, relatam poloneses que encontrei em Varsóvia.
O sentimento é ambivalente: solidariedade diante da tragédia, mas também fadiga. Uma mistura que reflete o próprio impacto da guerra no cotidiano europeu — um conflito que se transformou em nova normalidade. E, a depender dos bombardeios dos últimos dias, está longe do fim.



