
Em uma das semanas mais tensas desde o início da guerra no Leste Europeu, o chanceler da Ucrânia, Andrii Sybiha, disse esperar que o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, articule um encontro entre Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin. A expectativa foi revelada em entrevista a um grupo de jornalistas brasileiros e africanos, do qual Zero Hora participou, na quarta-feira (10), na sede do Ministério das Relações Exteriores ucraniano, em Kiev.
— O Brasil pode ajudar para que seja organizado um encontro entre Zelensky e Putin, com Donald Trump, e talvez com outros líderes, porque essa é a nossa ideia principal, e acho que o Brasil pode ajudar — afirmou o chanceler.
Sybiha lembrou que a atuação do governo brasileiro foi fundamental para a realização, em 2 de junho, da primeira reunião direta entre Rússia e Ucrânia desde o início do conflito. O encontro ocorreu em Istambul, na Turquia. Zelensky e Putin não compareceram, mas seus representantes acertaram, à época, a troca de 1,2 mil prisioneiros de guerra de cada lado, concretizada em 9 de junho. O pedido para que Lula mediasse o encontro foi feito por Sybiha ao ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, durante conversa por telefone.
— (Na ocasião) pedimos a Lula para que falasse com Putin para tornar o encontro possível. Ele aceitou. Naquele momento, o presidente do Brasil ajudou muito. Esperamos que ele continue da mesma maneira para que seja organizado um encontro entre os presidentes da Rússia e da Ucrânia — declarou.
A entrevista foi concedida poucas horas depois de um intenso ataque da Rússia contra todas as regiões da Ucrânia. Drones acabaram invadindo o espaço aéreo da Polônia. Os equipamentos foram abatidos em uma operação conjunta da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que entrou em alerta. Entre os veículos brasileiros em Kiev, além de ZH, estavam presentes Valor Econômico e Veja.
Durante a conversa, que durou cerca de 40 minutos, Sybiha afirmou que seu governo vai convidar Lula a visitar a Ucrânia.
— Queremos convidar alguém da administração e também o presidente Lula a visitar a Ucrânia — disse.
Na sequência, confirmou que a Ucrânia recebeu o convite para participar da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro, em Belém, no Pará.
— Esse ano, em vosso país, haverá eventos importantes, incluindo a COP, e a Ucrânia vai participar, já recebemos o convite — destacou.
Ao responder a uma pergunta de ZH sobre o que o governo Zelensky espera do Brasil como integrante dos Brics, grupo que inclui a Rússia, o chanceler pontuou:
— É muito importante que a Rússia não use os países que fazem parte dos Brics para legalizar suas ações. É importante que não diga que os países dos Brics estão contra a Ucrânia. São assuntos separados. O foco que esperamos dos parceiros dos Brics é que apoiem a Ucrânia e ajudem para que façamos o cessar-fogo. É muito importante fazer isso de maneira pública, porque nossa ideia é fazer um cessar-fogo no ar, na terra, e, só depois, negociar um acordo possível sobre paz — esclareceu.
O chanceler também disse esperar apoio brasileiro para pressionar a Rússia a parar de atacar infraestruturas civis, especialmente antes do início do inverno no Hemisfério Norte, em 21 de dezembro.
— O Brasil pode ajudar para que a Rússia pare com isso — disse.
O relacionamento entre os governos Lula e Zelensky não é dos melhores. Representantes de Kiev criticaram a visita do presidente brasileiro a Moscou, por ocasião das comemorações pelos 80 anos da vitória contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial, no dia 9 de maio. Zelensky já convidou diversas vezes Lula a visitar a Ucrânia e ver com os próprios olhos a realidade da guerra. A mediação brasileira para o encontro na Turquia ajudou a reduzir as animosidades. Na avaliação de diplomatas dos dois lados, houve melhora no relacionamento entre os dois governos nos últimos meses.




