
São 5h39min desta quarta-feira (10) em Kiev (noite de terça no Brasil). Só agora, depois de pouco mais de cinco horas, deixei o bunker do City Hotel, onde estou hospedado, no centro da capital da Ucrânia. Foi uma madrugada de pouco sono e muita tensão no país devido a uma série de bombardeios desferida pela Rússia contra a metrópole de 3 milhões de habitantes.
A ação militar do Kremlin, a terceira em grande escala em três semanas, desta vez, não deixou apenas os moradores de Kiev sem dormir. Provocou o primeiro choque direto entre armamentos utilizados pela Rússia e as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) desde o início da guerra, em 2022.
Os drones suicidas, Sharid, de fabricação iraniana, lançados contra a Ucrânia ao longo da noite de terça-feira (9) e madrugada desta quarta (10) violaram o espaço aéreo da vizinha Polônia, um membro da Otan, o que levou a uma resposta imediata — e inédita. Caças F-16 poloneses interceptaram drones russos, mas ainda não se sabe quantos aparelhos foram estilhaçados no ar — pelo menos um deles, há evidências.
A ação também levou a Polônia a fechar, em série, alguns de seus maiores aeroportos, como o de Rzézow, cidade a cerca de cem quilômetros da fronteira com a Ucrânia, Lublin, um pouco mais ao centro, e o principal do país, o da capital, Varsóvia (Aeroporto Internacional Chopin).

Aviões da Itália, da Holanda e dos Estados Unidos se juntaram aos caças da Polônia para abater os drones suicidas russos que caíram do lado polonês da fronteira, em um esforço poucas vezes vistos em uma situação real de combate (não em exercícios conjuntos). Além da ação na Polônia, os drones russos também teriam caído na Eslováquia e na Romênia, outros dois membros da Otan.
A noite insone no Leste Europeu começou por volta das 23h30min (18h30min em Brasília) de terça, quando as sirenes antiaéreas voltaram a ecoar pelo centro de Kiev, indicando a ameaça de bombardeios. A intensa troca de mensagens em grupos do Telegram indicava que a situação pioraria ao longo da madrugada.
Nessa hora, muitos hóspedes do City Hotel decidiram trocar seus quartos pelo bunker, localizado no subsolo do prédio. Ali passaram a noite.
Uma mensagem de funcionários do governo indicava que drones russos sobrevoavam o céu de Kiev. Por volta das 3h45min (22h45min no Brasil), sons de sobrevoo (aviões ou drones) seguidos de explosões foram ouvidos próximo ao hotel, no centro da cidade, sem que os alertas antiaéreos anunciassem o perigo.
Não se sabe, até o momento, se os ataques causaram danos ou vítimas. O certo é que atingiram alguma estrutura, uma vez que as explosões provocaram a detonação de alarmes de carros estacionados pelas ruas de Kiev.
Essa é a terceira grande ação russa nas últimas semanas. No dia 28 de agosto, um ataque atingiu um prédio civil em Kiev, matando pelo menos 22 pessoas, e espalhando estilhaços sobre edificações do British Council e da sede da delegação da União Europeia na Ucrânia. Outro, no domingo passado (7), atingiu um prédio do governo ucraniano. Duas pessoas morreram.





