
Os vidros da ampla sala de reuniões do prédio da delegação da União Europeia, no centro de Kiev, ainda trazem as marcas dos estilhaços provocados pelo bombardeio russo do último dia 28. Até então, aquele fora o maior ataque aéreo contra a capital da Ucrânia desde o início da guerra, em fevereiro de 2022.
A ação só foi superada pelo bombardeio do último domingo (7), quando mais de 800 drones foram despejados contra Kiev, matando uma mulher e seu bebê. O ataque da semana anterior, cujos estilhaços atingiram a sede da UE, matou 23 pessoas em um prédio residencial próximo.
Nesta terça-feira (9), dia em que cheguei a Kiev em uma viagem terrestre de 13 horas a partir de Varsóvia (Polônia), o vice-embaixador da União Europeia na Ucrânia, Gediminas Navickas, nos recebeu no prédio atacado. Além de Zero Hora, integram a comitiva de jornalistas que viajam a convite da própria UE dois outros brasileiros, profissionais do Valor Econômico e da Veja, e repórteres de veículos africanos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Pelo menos dois vidros da sala onde Navickas nos deu entrevista estão com estilhaços. Marcas em outras janelas do andar térreo também são visíveis. Navickas exibe fotografias de salas destruídas em andares superiores. Após o ataque, a delegação da UE só voltou ao trabalho na última segunda-feira (8).
Durante a fala, Navickas tem a sua frente, sobre a mesa, restos do arsenal russo que caiu ali, pedaços de ferro retorcido. Enquanto fala, segura em vários momentos o material, como prova de que os estilhaços no prédio, localizado na Rua Volodymyrka, número 101, coração de Kiev, não foi mero efeito colateral da guerra.

Pergunto qual o efeito simbólico de um ataque à UE. A busca da Ucrânia por integrar o bloco é um dos motivos alegados por Vladimir Putin para o início da invasão, em 2022. Na verdade, as aproximações do país de Volodimir Zelensky com a comunidade europeia, desde 2004, tem gerado rusgas entre Kremlin e Kiev. Diz o embaixador:
— O ataque foi a apenas 80 metros daqui. Eles (os russos) estavam perfeitamente cientes do impacto, porque isso também importa, qual tipo de míssil estavam usando. Como todos os mísseis, eram cheios de estilhaços, que basicamente visam matar. O objetivo (dos estilhaços) é maximizar os danos à população civil, não apenas na área do ataque em si, mas também nas áreas circundantes.
Navickas diz, claramente, que o ataque foi deliberado, sabendo que alcançaria o prédio da UE, que tem liderado esforços de apoio à Ucrânia. A própria presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já esteve em Kiev em meio ao conflito e acompanhou Zelensky na recente visita do presidente ucraniano a Donald Trump. Continua o embaixador:
— É claro que aqueles que estavam planejando este ataque e seus perpetradores tiveram de levar em consideração os impactos. Nossa avaliação é de que (a ação) também era parte da mensagem estratégica para a União Europeia, a fim de nos intimidar. Mas posso declarar que, ao contrário, a Rússia jamais conseguirá nos intimidar. A União Europeia e a UE, os líderes da UE, a delegação está aqui e permanecerá. E o que estamos fazendo é, obviamente, aumentar nossas medidas de segurança para proteger nosso pessoal. Mas continuaremos a apoiar a Ucrânia e o povo ucraniano e a fornecer todo o apoio necessário, seja financeiro, humanitário ou militar — disse.




