
Ao menos, desta vez, Donald Trump tratou Volodimir Zelensky com o devido respeito que se espera nas relações entre chefes de Estado.
Da última vez, em fevereiro, havia sido um show de horrores, com o presidente ucraniano sendo, na prática, enxotado da Casa Branca.
Etiqueta não deveria ganhar destaque em um encontro como esses - deveria ser pré-requisito. Mas, no atual estado das coisas, e com o total descompromisso de Trump com a altivez do cargo, vale o registro.
Dito isso, vamos ao que realmente importa: o fim da guerra entre Rússia e Ucrânia ou, no mínimo, um cessar-fogo. Todo mundo sabe que Trump quer passar à história como o "pacificador" e não aceitará nada menos do que Nobel da Paz. Também é de conhecimento público que o desenho de qualquer acordo passa por encher as mãos de Vladimir Putin de presentes em forma de território: o czar do Kremlin ficaria com Dotesk e Luhansk, parte de Kherson e Zaporyzhzhya, e, claro, a Crimeia.
Mas o que caberia a Zelensky e à Ucrânia? Afinal, não há nenhuma garantia de que Putin, abocanhando 20% do território vizinho hoje, não irá, daqui um ou dois anos, iniciar outra guerra para tomar o restante. Afinal, foi tem sido assim: em 2014, o mundo não fez nada quando ele ocupou a Crimeia e, em 2022, Putin voltou para pegar toda a Ucrânia.
Um dos prêmios de consolação para a Ucrânia seria alguma garantia de segurança semelhante ao mandato coletivo de defesa da Otan, o artigo 5º. O país não entraria na aliança militar, mas valeria o princípio de "um ataque contra um é um ataque contra todos" - o que mantém a espada sobre a cabeça de Putin.
Outra proposta seria nos moldes da política americana em relação à China — a ambiguidade estratégica. Os EUA reconhecem oficialmente a República Popular da China (RPC) como o único governo legítimo do país desde 1979, quando estabeleceram relações diplomáticas com Pequim. Porém, não reconhecem a soberania da China sobre Taiwan, e consideram o status da ilha como não resolvido. O Taiwan Relations Act estabelece que os EUA manterão relações comerciais, culturais e de defesa com a ilha, mas não garante automaticamente uma intervenção em caso de ataque — daí o termo “ambiguidade”.
Nos dois casos, apenas se adia o problema - os canhões se calam por algum tempo, mas o perigo permaneceria à espreita.






