
Vai se desenhando o mundo do jeito que o diabo gosta: à margem do Direito Internacional, fazendo valer a lei do mais forte e recompensando o criminoso.
Vale recapitular: em 2014, Vladimir Putin, o autoritário presidente russo, invadiu e anexou a península da Crimeia sob olhares complacentes da comunidade internacional. Como se diz na linguagem do futebol, a Rússia foi gostando do jogo. Em fevereiro de 2022, o autocrata do Kremlin deu início a uma invasão em larga escala do restante do país, bombardeando toda a nação e avançando sobre o Donbass. Kiev resistiu, o Oeste do país foi relativamente poupado, e a maior guerra na Europa desde o conflito global encerrado em 1945 caiu no esquecimento — ainda que o sofrimento da população, as mortes e a destruição não tenham cessado.
Com Donald Trump no Salão Oval, como já previmos nesta coluna, uma solução se encaminharia — favorável a Putin, por óbvio. É o que começa a ser delineado no terreno. Ao contrário do que dizem as manchetes sobre o encontro entre os dois presidentes no Alasca, a reunião de cúpula, com direito a recado aos russos no rasante do B-2 sobre a base de Anchorage, não foi sem resultado. Foi pró-Putin.
Nesta segunda-feira (18), Trump voltará a encontrar Volodymyr Zelensky na Casa Branca e, se não for o show de horrores da última vez, o ucraniano já sairá de Washington “ganhando” — digo, com prêmio de consolação.
O que está se desenhando é a entrega de territórios da Ucrânia para a Rússia, a partir da consolidação do que se vê hoje no front: Donetsk e Luhansk ficam com a Rússia (Sumi e Kharkiv, hoje ocupadas pelos russos, seriam devolvidas a Kiev). Zaporizhzhia, onde está a central nuclear, e Kherson, hoje em poder dos russos, seriam espólio de guerra, repartidas entre um e outro lado. Obviamente, estamos falando também da consolidação da Crimeia para Moscou.
Há vários indícios de que esse cenário — ou seja, o congelamento do front atual — está se confirmando: o fato de o presidente ucraniano, Zelensky, não ter participado do diálogo no Alasca; e sua própria manifestação neste domingo, a primeira em que admite que pode ceder território à Rússia. Na prática, a caminho de Washington para a reunião com Trump, ele tenta apenas não perder a dignidade — como ocorreu da última vez. Por isso, encontrou-se com Ursula von der Leyen neste domingo (17).
O grande problema de ceder território é passar a impressão de que o crime compensa. Não há como ignorar o fantasma de Chamberlain, em 1938, quando, em troca de uma paz momentânea, o primeiro-ministro britânico aceitou, no Acordo de Munique, que a Alemanha nazista anexasse os Sudetos, na antiga Tchecoslováquia, sob a promessa de que o Führer não iniciaria uma nova agressão. A política do apaziguamento frente a regimes expansionistas se mostrou um dos maiores fracassos da história da humanidade. Hitler não apenas abocanhou os Sudetos, como grande parte do resto da Europa.
Putin, por óbvio, não é Hitler — mas também não há garantias de que não tentará o mesmo na Moldávia ou nos Estados Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia, todos membros da Otan). Em ambos os casos, poderia alegar a defesa de russos étnicos, como fez na Crimeia e no Donbass. Na Geórgia, a Rússia já controla, de fato, duas regiões separatistas: a Abecásia e a Ossétia do Sul. No Cazaquistão, há uma enorme população de etnia russa. E Belarus, embora oficialmente independente, depende econômica e militarmente de Moscou.
Se houver cessar-fogo nesta semana, o mundo estará dizendo, mais uma vez, que o crime compensa.


