
Na próxima quarta-feira (6), entram em vigor as tarifas do governo americano sobre a importação de produtos brasileiros. Diante da espera para a data, a coluna conversou com Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais e pesquisador de Harvard, sobre a relevância do Brasil para os EUA, a percepção pública americana e o que ficar de olho a partir de agora.

Qual o peso do Brasil para os EUA?
O Brasil representa pouco do que os EUA importa se olharmos só para o volume. Mas essa não é a melhor forma de observar, porque se não tivesse importância, não haveria exceção e quase 700 produtos brasileiros nas tarifas. Tem mercados que os EUA não conseguem substituir no curto e médio prazo, como por exemplo o suco de laranja. Metade do suco de laranja que os EUA importa é do Brasil. Já o café é de 30 a 33%, só que ele não levou a isenção. E tem a questão dos aviões da Embraer. Então perguntar quanto é o peso, pode ser medido de várias formas. Se olharmos só para o volume, não dará a resposta certa, porque ficou muito evidente que as medidas de Trump não são só comerciais. Quando ele anunciou tarifas no início do ano, falava sobre déficit dos EUA com o restante do mundo, que as medidas seriam necessárias para equilibrar isso, mas no decorrer dos meses ficou evidente que, além do interesse comercial, há interesses geopolíticos, geoeconômicos e políticos. Há alguns dias os EUA e a Índia lançaram satélites conjuntamente. No mesmo dia, os americanos aplicaram tarifas sobre a Índia, porque eles compram muito material bélico da Rússia e financiam a guerra contra a Ucrânia comprando derivados do petróleo russo. No acordo tarifário (em curso) com a China, um dos aspectos é que os chineses parem de comprar ativos energéticos russos. E o Brasil está na mira das tarifas secundários, porque 65% das importações de diesel do Brasil vêm da Rússia. Temos de olhar também para a questão geopolítica, geoeconômica e que Trump tenta favorecer um antigo aliado, que é Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo que o atual governo, Lula, pediu voto para Kamala (Harris) durante a campanha. Disse: "Deus queira que a Kamala vença". Então, temos três lados: Trump que é criticado por aplicar tarifas e promover guerras comerciais; os Bolsonaros que são acusados de tentar livrar (Jair) Bolsonaro da cadeia; e o lado do Lula que não se aproximou do nosso segundo parceiro comercial por questões ideológicas e falou na campanha o que não precisava ter falado. Assim como falou na Cúpula do Brics o que não precisava falar sobre o dólar. Qual lado está certo? Nenhum. Mas não é correto falarmos que o Brasil não é importante para os EUA, pois o Brasil está com a maior carga tarifária, o que pode demostrar a importância que os americanos dão para a situação política e geopolítica do Brasil e com alinhamento com a China e Rússia.
A aplicação da Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes e o tarifaço no mesmo dia foi coincidência?
Não foi coincidência. Os EUA têm uma estratégia de aplicação gradual de sanções, tarifas e medidas contra o Brasil que podem afetar todo o país. Não sou eu que digo isso, são os senadores brasileiros que estiveram nos EUA na última semana. Existe, inclusive, um mapa de utilização gradual com bifurcações: se a resposta for essa, o caminho é esse. Marco Rubio, atual Secretário de Estado americano, conhece muito bem a América do Sul e ele acompanha muito o que acontece no Brasil. Eles têm uma visão de que há perseguição política, que o judiciário de alguns países (da América do Sul) são instrumentalizados pela esquerda. Trump vê isso dessa forma. Ele acredita que foi perseguido nos EUA e que Bolsonaro está sendo perseguido no Brasil. Agora, quando Mauro Vieira (ministro de Relações Exteriores) esteve com Rubio na última semana, Vieira disse que não há como o Executivo interferir no judiciário, que é uma visão que o Rubio e Trump têm. É muito difícil explicar para o americano o que ocorreu no Brasil: um ex-presidente foi preso, ficou 500 dias presos, foi libertado, foi eleito. E o presidente que não até então não tinha denúncia, se torna inelegível. Nos EUA existe outra percepção da democracia, não veem como alguém que tem um terço das intenções de votos nas pesquisas, não possa ser aprovado nas urnas. Ao mesmo tempo, o governo Lula não se aproximou do governo dos EUA para deixar isso mais claro. Nem conseguiria, pois Lula tem uma diplomacia personalista e tomou a frente no Itamaraty.
Qual a percepção da opinião pública dos americanos sobre o tarifaço contra o Brasil?
O que acontece é que ainda não ocorreu o efeito inflacionário nos EUA. As empresas se preparam para a guerra tarifária e estocaram (produtos). Ainda não há um peso das tarifas no dia a dia da vida das pessoas. Além disso, Trump fez acordos muito bons com a União Europeia, por exemplo. Por um lado as pessoas ainda não sentem ou sentem pouco, e por outro lado há acordos grandes, como o do Japão também, a questão da China em andamento, e o que mais se fala nos EUA hoje é o escândalo de Epstein. O Brasil não é foco de interesse na opinião pública. Tem a questão de alguns criticarem a aplicação da Lei Magnitsky contra o Moraes, porque não tem equiparação com outros casos que a lei foi usada.
O que olhar daqui para frente?
Tarifas secundárias. Neste momento, a ameaça de tarifas secundárias está sendo organizado não só por Trump, mas pelo Congresso. O Senado aprovou a lei de aplicação de tarifas de até 500% para países que comprem derivados energéticos russos. Ou seja, países que financiem o esforço militar russo. E o Brasil é citado como um deles. E também tem a questão da sanção contra Moraes, pois nenhum dos países que tiveram a aplicação da Lei Magnistky, que é Venezuela, Hong Kong, Nicarágua e Rússia, nenhum deles só um juiz foi sancionado. Sempre são vários. Então, provavelmente a Lei será utilizada em outros juízes. Falo isso olhando para o histórico dessa Lei.



