
Em entrevista à coluna, a diretora executiva do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Legal, Vanessa Duarte, contou como os Estados que contam com a floresta em seu território estão se preparando para a COP30, que se realizará em Belém, em novembro deste ano.
Qual o principal desafio de comunicar a Amazônia neste período pré-COP30?
A gente tem muitas Amazônias dentro da nossa Amazônia. Quando a gente fala de Amazônia no nível internacional, o investidor a vê como um bioma, Amazônia brasileira. Os brasileiros, nós, os amazônidas e não-amazônidas, a veem como os Estados do Acre, do Amapá, do Amazonas, com os seus desafios e especificidades muito distintos. Isso vem sendo um desafio muito grande para comunicar, porque não há consenso em alguns temas: o maior desafio de Roraima, hoje, é a questão da chegada dos venezuelanos, que, por sua vez, não é o maior desafio do Amapá. Então, é muito difícil fazer essas conexões. Por isso, a comunicação sempre foi um grande gargalo. Essa narrativa única de Amazônia é o que estamos tentando construir, é o que a gente vem trabalhando há alguns anos.
Os brasileiros não conhecem a Amazônia. O que os Estados amazônicos entendem como oportunidade que não pode ser deixada de lado na COP30?
É uma preocupação, porque, de fato, os brasileiros não conhecem a Amazônia. E eu chego a dizer que muitos amazônidas não conhecem a Amazônia. Eu sou rondoniense, eu nasci no interior de Rondônia. Quando eu me mudei para capital de Rondônia pra estudar, eu conheci uma Rondônia totalmente diferente da Rondônia que eu nasci. Hoje, conheço todos os Estados da Amazônia brasileira. A gente percebe as conexões, mas como são diferentes os Estados: a cultura, a culinária. Existem muitas coisas muito parecidas, esse sentimento de Amazônia, de o indígena misturado, todos vêm de algo muito territorialista ali, de uma cultura já estabelecida, diferente do restante do Brasil, do Norte. Mas é tudo muito individual ainda. Acho que esse é o nosso maior desafio. É isso que a gente vem tentando fazer através do consórcio, que é essa conexão de objetivos, de narrativa única.
Como vocês tentam, em um ambiente político difícil como o atual, unificar discursos, sendo que há governadores de diferentes partidos?
A gente conseguiu, ao apresentarmos nove temas de convergência. Se a gente vai falar de carbono, nem dentro do próprio Estado existe uma anuência entre as secretarias da Fazenda, do Meio Ambiente, do Planejamento e o gabinete governador. Aí você vai para os secretários de Meio Ambiente de cada Estado. Aí eles também não convergem tecnicamente: um tem posicionamento que o carbono tem de ser só projetos, outro não deve ser vendido. Existem algumas sensibilidades que não tem convergência. Temos trabalhado com os governadores no que tem convergência. Naquilo que não há, a gente abandona. Estruturamos uma parceria com a ONU, quando o fundo da Amazônia estava congelado na gestão passada. E a gente conseguiu fazer esse fundo, dois anos de desenho, e agora conseguimos um primeiro aporte no final do ano do governo canadense de 13 milhões. E aí faz uma chamada de projeto para todos os estados. Aí vem cá, a gente não converge, mas o consórcio está entregando. Isso faz com que essa máquina não desacelere, cada vez a gente ganhando mais força no âmbito do colegiado.
A visão que se tem em relação à COP30 é de muita desorganização. Como está a preparação para o evento?
Todo mundo fala muito da questão logística, como um desafio em relação a valores absurdos. Mas a COP sempre foi um desafio em todo lugar. No Egito, eu com a minha equipe, a gente ficou mais de 24 horas sem comer, porque não tinha comida. A gente chegou antes, e o governo não tinha liberado: pararam lá no Cairo os caminhões e não chegou a comida. A gente pegou um resort 5 estrelas porque sabíamos que seria desafiador, só que a gente saía 7h da manhã do hotel e voltava 2h. O hotel tinha cinco restaurantes, e eu só comi no 24 horas, lanche, pão com salmão defumado, durante 12 dias. No ano passado, no Azerbaijão, pagamos muito mais do que algumas hospedagens em Belém. O grande desafio é que nesses outros locais que tiveram COP, a agenda era só internacional. No Brasil, a COP virou uma Copa do Mundo. Governos que nunca tiveram aderência, que nunca participaram dessa agenda, porque não estão no bioma, porque não lhes interessa, querem estar na COP e estarão na COP do Brasil. A gente escuta de pessoas que deveriam ser muito bem esclarecidas perguntando "qual será o dia do evento que o presidente vai falar?", achando que vai haver um dia em que o presidente vai falar, em que o governador vai falar, que vai ser no estádio, que todo mundo que for vai assistir ao show da Joelma.
Hoje, os Estados da Amazônia entendem a importância e o que é a estratégia de estar na COP
Devido à vitrine?
Pela vitrine, exatamente. Hoje, os Estados da Amazônia entendem a importância e o que é a estratégia de estar na COP: de estar no local onde o metro quadrado é muito caro, porque as pessoas que estão lá são investidores, são observadores, são pessoas que estão ali em busca de aportar os seus recursos em algum projeto, em algum lugar. No Brasil, a COP virou uma Copa do Mundo, um evento, e existe um desconhecimento grande por parte da sociedade em relação à própria agenda. Houve atrasos muito grandes nas definições por parte do governo federal, da presidência da COP, de quem iria tocar essa agenda. Esse atraso na agenda gerou muito desconhecimento e, hoje, a presidência da COP tem um mundo de coisas para fazer e não tem tempo para letrar a sociedade sobre aquilo que já foi disseminado e que está todo mundo querendo estar na COP.
Vocês estão ocupando espaços que o governo federal não ocupa?
É exatamente isso. Os subnacionais nunca tiveram espaço dentro da conferência. E os governos subnacionais eram procurados pelos países. "Cadê seu projeto? Vem conversar com a gente, a gente tem dinheiro para investir na Amazônia, a gente tem dinheiro para investir na Amazônia". O Consórcio da Amazônia foi constituído com esse objetivo, de tratar da região, do bioma, de capitanear recursos de países para dentro da Amazônia. O nosso primeiro recorte de desenho, de planejamento estratégico, lá em 2019, era uma carteira de 22 projetos estratégicos. Teríamos um escritório de projetos aqui e ia captar recursos internacionais. A gente fez isso nos primeiros anos com essa visão porque os governadores recebiam a informação dos investidores dizendo: "Temos dinheiro e queremos investir na Amazônia". Não tinha esse espaço para os subnacionais. Os governos começaram a ir nas conferências, desde Madri, e aí foi de muita possibilidade de recurso para ser captado. E, a partir daí, o consórcio começou a se estruturar como um espaço próprio. E a gente foi buscar um mecanismo de ser um espaço próprio. Na gestão passada (governo de Jair Bolsonaro), foi visto como uma concorrência. A gente não tinha dinheiro, um exemplo, e aí tinha lá o estande do Brasil todo lindo, com neon, com tudo, e a gente com paredes brancas, com alguns adesivos colados. No Egito. Mas a gente tem vídeos, mesmo com dificuldade no som, com todas as dificuldades tecnológicas que tiveram lá, o nosso hub bombando, porque todo mundo dizia "Amazonia? Consórcio? O que é isso?". Todo mundo muito curioso, de uma discussão de carbono, de bioeconomia. Dubai já foi uma coisa mais estruturada. Em Bacu, a gente fez 64 eventos, quase todos eles com cientistas, com dados, com tudo. Realmente, nunca houve esse espaço para os subnacionais. A gente tem a sociedade, 27 Estados, sociedade civil, os ministérios, então acaba se tornando muito desafiador chegarmos a um espaço desse e conseguir um, dois eventos. E no nível que o consórcio, quando ele estabeleceu essa possibilidade de espaço para os Estados, chegamos a um nível que não tem mais como voltar. Porque ali a gente proporciona a estruturação e os governos têm a possibilidade de fazer essas reuniões bilaterais, de estarem frente a frente, um espaço para além dos painéis, de dialogar com a comunidade internacional, com os investidores e com todo mundo.





