
Ao lançar dois petardos contra o Brasil no mesmo dia — a imposição de sanções contra o ministro Alexandre de Moraes e assinar o decreto do tarifaço — Donald Trump rompe com 200 anos de boas relações diplomáticas com os Estados Unidos. Este é um ponto de inflexão histórico no diálogo bilateral e o momento de maior crise diplomática entre os dois países.
Geograficamente, o Brasil fica posicionado na área de influência dos Estados Unidos, potência hegemônica. Há o ônus e o bônus disso. Essa proximidade nos deixa suscetíveis às decisões da maior potência política, econômica e militar do planeta.
A relação entre EUA e Brasil é, historicamente, de aproximações e distanciamentos. Os EUA foram o primeiro país a reconhecer a independência do Brasil. Houve momentos de alinhamento, como o apoio ao golpe militar de 1964. No final dos anos 1970, o governo Jimmy Carter começou a pressionar o Brasil pela questão dos direitos humanos, e os EUA apoiaram a redemocratização. Os olhos da CIA estavam voltados para a eleição de 1989, como revelou ZH em reportagem que assinei com o repórter Carlos Rollsing.
Uma manobra típica do seu estilo: imprevisível, errático, teatral. O mesmo Trump que dizia precisar de “10 dias” para decidir se atacaria o Irã… e bombardeou no dia seguinte. Mentiu, como costuma mentir.
Trump não é liberal. Um liberal acredita no livre mercado, na globalização, no comércio como ponte entre nações. Trump prefere muros a pontes. Fecha os Estados Unidos para proteger seus próprios interesses — ou os de sua base eleitoral. Um dos argumentos usados agora é o de que o Brasil representa uma “ameaça à segurança nacional americana”. Seria cômico, não fosse trágico. O Brasil não representa qualquer risco real ao poder dos EUA. Ao contrário: é parceiro comercial e estratégico. Os Estados Unidos são o segundo principal destino das exportações brasileiras, e o Brasil, um dos maiores receptores de investimentos diretos americanos. A balança comercial é superavitária em favor dos americanos. A punição, portanto, não é técnica. É ideológica.
A hostilidade de Trump é acompanhada pelo desprezo diplomático. O republicano não se dignou a nomear um embaixador para o Brasil. A chefia da embaixada americana em Brasília está vaga desde o final de 2024 — um sinal claro de desprezo ao relacionamento com o atual governo brasileiro.
Governos passam. Estados ficam. Mas rupturas como essa deixam rastros: empresas quebram, empregos são perdidos, vidas são afetadas. Que os quatro anos de Trump na Casa branca seja apenas um hiato negativo de uma relação que, por mais assimétrica que seja, sempre teve o diálogo como ponto de partida.





