
Subestimamos a relação entre a família Bolsonaro e Donald Trump. Tratamos o vínculo como folclore, como se fosse só mais um show de afinidades ideológicas entre dois populistas, separados por idiomas, mas unidos pelo mesmo estilo fanfarrão.
A atualidade mostra que havia mais do que retórica: havia estratégia e interesses compartilhados.
A ameaça cada vez mais concreta de tarifas unilaterais contra os produtos brasileiros, com a exigência velada de que o Supremo reverta decisões contrárias ao ex-presidente e outros réus por golpismo, é uma evidência de como Trump enxerga o Brasil: não como um parceiro, mas como um satélite de suas vontades orbitado por aliados de ocasião.
Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro deste ano, o americano falou abertamente contra ministros do Supremo, ironizou Lula e sugeriu que o Brasil só teria benefícios se “corrigisse seus erros” — leia-se, se favorecesse seus amigos.
Há pontos a serem ligados entre a política externa trumpiana e a articulação de Eduardo Bolsonaro no autoexílio. Ignorar essa conexão foi um erro de avaliação — esta coluna não ignorou, mas minimizou o potencial danoso da aliança. Apostamos que os laços pessoais seriam dissolvidos pela distância, pela derrota eleitoral e sobretudo porque entendia-se, ao menos as mentes racionais, que o presidente da maior potência militar e econômica do planeta teria mais com o que se preocupar do que com a política brasileira.
Mas os fatos mostram o contrário: Trump voltou ao poder disposto a retribuir favores e a reescrever alianças. O ex-presidente segue sendo instrumentalizado como peça no tabuleiro geopolítico — especialmente para desestabilizar o atual governo e alimentar narrativas contra instituições como o Supremo.
Um erro ainda maior tem sido desprezar a teia que liga a família Bolsonaro a Steve Bannon e à alt-right americana. Ex-estrategista de Trump e arquiteto da guinada radical na política americana, Bannon se tornou conselheiro informal dos filhos do ex-presidente brasileiro, especialmente Eduardo, que atua como espécie de embaixador latino-americano do movimento nacional e populista. Em 2019, o hoje deputado licenciado chegou a integrar a internacional conservadora idealizada por Bannon, o chamado "The Movement", que ambiciona criar uma frente de direita dura para influenciar eleições e governos pelo mundo.
A relação é operacional. Envolve trocas de mensagens, alinhamento de discurso, treinamento digital, difusão de narrativas conspiratórias e coordenação de ataques contra instituições democráticas — tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. O bolsonarismo, com sua estrutura digital, seus influenciadores e seu método de guerra cultural, tornou-se um braço eficaz da extrema direita transnacional, replicando táticas que Bannon testou nos EUA e na Europa.
O 8 de janeiro de 2023, em Brasília, e o 6 de janeiro de 2021, em Washington, não são coincidência. São capítulos de uma mesma lógica de deslegitimação eleitoral. O bolsonarismo e o trumpismo compartilham métodos, alianças e objetivos.
O fato de termos subestimado o lobby de Eduardo Bolsonaro no Beltway não significa afirmar que ele tem uma cadeira cativa na Casa Branca — ao menos, não até onde se sabe. Mas é inegável que mantém canais com a ala mais radical do Partido Republicano, hoje majoritária sob a sombra de Trump. Também não se trata de romantizar a relação entre os dois: Trump não morre de amores por Bolsonaro, assim como não morre de amores por ninguém que não lhe seja útil. Seu padrão é claro — precisa de um inimigo útil em cada contexto para justificar medidas autoritárias ou ampliar sua influência.
Foi assim com os chineses, alvo preferencial de sua retórica comercial e militar; com os imigrantes latino-americanos, usados como bodes expiatórios em sua política de fronteira; e até mesmo com Volodymyr Zelensky, exposto deliberadamente à imprensa mundial no Salão Oval como um líder frágil, acuado e dependente. O Brasil, nesse jogo, começa a ser posicionado na prateleira dos “governos-problema” — não por seus atos, mas por não se dobrar à lógica trumpista.

