
Depois de uma semana em que as imagens da fome em Gaza horrorizaram o mundo, Israel anunciou, no fim de semana, uma "pausa tática na atividade militar" -, o que permitiu o deslocamento de caminhões com ajuda humanitária e o sobrevoo de aeronaves, despejando comida de paraquedas sobre o território.
Israel nega que seja responsável pela catástrofe humanitária, e acusa o Hamas de sequestrar a comida que chega. Ainda que a "pausa tática" possa ser apenas uma resposta momentânea às críticas da comunidade internacional, inclusive de aliados como Reino Unido, França e Alemanha, na infeliz história dessa guerra iniciada em 7 de outubro pelos terroristas -, é melhor que isso do que nada.
Já faz muito tempo que todos os lados perderam a razão. O Hamas além de roubar comida e remédios faz a população palestina de refém. Israel permite que os caminhões ingressem em Gaza, mas não o suficiente nem na velocidade necessária para aplacar o caos. Esses veículos transitam alguns quilômetros dentro de Gaza e são engolidos pela multidão esfomeada. Não há segurança nas rotas ou qualquer poder estatal - "é o lobo homem do próprio lobo" em sua versão mais ancestral.

As Forças de Defesa de Israel (FDI), que precisam garantir que não há armas nos carregamentos, acabam atrasando ou negando movimentos regulares coordenados para a entrega. Sem falar que quase 70% das rodovias de Gaza estão danificadas.
As novas regras também tornam a distribuição um funil: o novo sistema, por meio da chamada Fundação Humanitária de Gaza (GHF), que substituiu a rede de apoio da ONU, centraliza demais a distribuição. A ONU e outras agências não cooperam com o novo sistema, porque o consideram desumano e militarizado - não à toa centenas de palestinos foram mortos por tiros quando iam buscar comida, o que indica truculência.

A ajuda despejada de aviões - por Israel, Jordânia e Emirados Árabes Unidos, por enquanto - normalmente agrada fotógrafos de guerra e dão certo acalento à opinião pública internacional de que algo, finalmente, está sendo feito. São ações que rendem impactantes imagens, mas são insuficientes. Isso não vai acabar com a fome em Gaza.
Lá embaixo, os paletes, quando caem, podem ferir - como já ocorreu nesses dias - ou matar. Se caem sobre um escombro de residência ou sobre uma casa improvisada sob lonas, provoca danos. Crianças e adultos correm para muito longe de seus pontos de referência para pegar a carga, que cai distante de onde as pessoas precisam. Quando a multidão alcança o lote, há confusão, brigas, mortes. Se caem em áreas minadas, o alento se transforma em armadilha.
Lançamento de comida é, normalmente, considerado o último recurso - o que sugere a que nível pavoroso chegamos neste conflito.
Somente uma operação humanitária irrestrita e um cessar-fogo podem resolver a crise humanitária. O segundo é pré-requisito para o primeiro. Com passagens abertas, corredores seguros, é possível conectar Gaza à Jordânia, usada com frequência como linha de suprimentos. A porção norte do território palestino é diminuto - não à toa chamado de Faixa - e fica a não mais do que 30 minutos de carro de Ashdod, a bela cidade de Israel, onde fica um moderno porto, que poderia receber apoio internacional. Toneladas de comida, de forma organizada, poderiam chegar por ali. Não é difícil. Não é impossível. Basta querer. Mas as armas precisam ser caladas primeiro.




