
O sonho de Lula é ser protagonista mundial. É a serviço desta ambição que o Brasil liderou por 13 anos a missão de paz das Nações Unidas no Haiti. Naquele tempo, o presidente saído do chão de fábrica para o Planalto chamava atenção nos tapetes vermelhos dos fóruns internacionais. Era descrito como "o cara" por Barack Obama. E, não fosse a patrola da Casa Branca, que mostrou quem realmente manda no mundo, teria chegado a um acordo para neutralizar o processo de enriquecimento de urânio do Irã, em 2010.
O problema é que, enquanto Lula estava preso e Jair Bolsonaro tornava o Brasil pária internacional, a geopolítica mudou. O slogan "Brasil voltou", após anos de ostracismo na política externa do chanceler Ernesto Araújo, era feito mais de passado do que de presente. O mundo não estava mais de olho nos emergentes do Sul Global. O que importava, agora, era a China.
O protagonismo de Lula III foi erodindo a partir de equívocos ideológicos e da verborragia presidencial, que atropela o profissionalismo do Itamaraty. Nos dois conflitos atuais, na Ucrânia e no Oriente Médio, Lula culpabilizou as vítimas, no mínimo equiparando, em grau de responsabilidade, invasor e invadido, autores e inocentes. A tomada de lado inviabilizou o principal pré-requisito da cadeira de um mediador: a neutralidade.
Bolsonaro e Lula tiveram suas imagens internacionais corroídas pelo destrato da democracia - o primeiro, com ataques, o segundo com relativizações.
O retrato de decadência foi pintado pela revista britânica The Economist, no final de semana, apontando que o Brasil como irrelevante em debates geopolíticos centrais. Lula é presidente dos Brics, um bloco que se tornou um clube de autocratas, como Vladimir Putin, Xi Jinping, e o general Abdel Fattah al-Sisi, de torturadores sauditas, e de apoiadores do terrorismo, como os aiatolás do Irã.
O cambaleante Mercosul é uma oportunidade de colocar o pescoço para fora da água e liderar pelo exemplo, ao menos no concerto entre hermanos — rejeição explícita a ditaduras, ao terrorismo e a defesa intransigente da democracia seriam um bom começo. Mas a prova final virá, mesmo, em novembro na COP30, em Belém. Falta pouco tempo — e não será com a incoerência de quem faz um discurso verde lá fora, mas apoia a exploração de petróleo aqui dentro que se reconquistará o respeito perdido.


