
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Depois da assinatura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta quarta-feira (30), do decreto que regulamenta a taxa de 50%, com exceções, sobre produtos brasileiros, a coluna conversou com Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central entre 2003 e 2010, ministro da Fazenda do governo Michel Temer, entre 2016 e 2018 e candidato a presidência em 2018.
Leia os principais trechos.
Como o senhor avalia o tarifaço?
É um confronto realmente muito sério. O Brasil é um dos poucos países que, de fato, recebe uma tarifa dessa magnitude. Ele (Trump) faz uma série de declarações em relação ao Brasil, que são questionáveis: "O Brasil está ameaçando a segurança nacional americana e a economia americana". Para começar, o Brasil tem um déficit comercial com os EUA. Acho que há uma motivação muito política. Ele faz uma análise muito subjetiva, dependendo da função política da pessoa no Brasil, por exemplo, se é contra ou a favor... Mas o fato concreto é que temos de avaliar agora como compensar as exportações (que iriam) para os Estados Unidos (e que agora devem ser enviadas) para outros países. Os EUA não são mais o maior parceiro comercial do Brasil. A China é. Temos de trabalhar, as empresas têm de trabalhar para redirecionar essas exportações para outros países. E diversificar a nossa pauta de relacionamento econômico.
As justificativas americanas têm embasamento?
A princípio, não. Não vejo o Brasil ameaçando a segurança nacional e a economia americana. Ele deixa claro que tem motivação política. E aí, motivação política é uma questão de função política. Trump adotou um lado da política brasileira, basicamente.
Como sair desse cenário? O que fazer daqui para frente?
Tem de trabalhar, investir, etc. para as empresas direcionarem suas exportações para outros países. É isso.
Se o senhor estivesse no ministério da Fazenda, o que faria? Alguma sugestão?
Em primeiro lugar, é importante que o Brasil cresça, que seja uma economia forte. Para isso, é importante a questão fiscal. Eu queria estar trabalhando por um equilíbrio fiscal, que, agora, é mais relevante do que nunca. E fortalecer a economia brasileira, a sua capacidade de atrair investimentos para fazer a adaptação da produção para outros mercados.
Quais mercados o senhor acredita que o Brasil poderia criar novos vínculos?
China, por exemplo. Outros mercados asiáticos e também a própria comunidade europeia.
Como o senhor avalia o papel do governo brasileiro até o momento?
Está trabalhando, o vice-presidente Geraldo Alckmin tem tentado. Mas o problema é que a situação está muito politizada. Essa é a questão fundamental. E, principalmente, Trump trata como parte do governo brasileiro decisões do Supremo Tribunal Federal. Sabemos que não é governo. É independente, é uma essência da democracia. E ele (Trump) trata como se fosse parte do Executivo. "O governo brasileiro tem tomado decisões que prejudicam a lei americana". E, na verdade, são as ordens de um tribunal, que interpreta a lei da maneira que acha adequada.
As tarifas de Trump não acabam ferindo a soberania nacional?
Acho que não. Os Estados Unidos têm o direito de colocar a tarifa que quiser no país deles. Não interfere (na soberania) do Brasil. Por outro lado, tem, durante décadas, colocado tarifas maior ou menor, dependendo do produto. Até então o Brasil não interferiu na soberania nacional de ninguém. É uma questão, de última hora, doméstica, que prejudica a economia de outros países que exportam para lá. Mas é uma questão doméstica. Ele impõe tarifa na entrada nos Estados Unidos. Ele não impõe tarifa para empresas que não estão exportando para os Estados Unidos, por exemplo. Não está interferindo nisso nem tem nem poderes para isso.
A Lei da Reciprocidade seria uma medida viável?
Pode até ser, mas tem de ser pensado com muita inteligência e precisão.






