
O que mais se ouve lá fora, quando se fala na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), é que, pela primeira vez, ao invés de só falar sobre a Amazônia, o mundo, realmente, conhecerá esse bioma. De fato, a floresta, tema recorrente dos discursos de proteção ambiental, é um dos assuntos mais comentados e pouco conhecidos do planeta.
Não é incomum o Brasil mesmo desconhecê-la e tratá-la como um bloco verde monolítico, ignorando-se idiossincrasias regionais dos nove Estados cobertos pela mata e, principalmente, a realidade de quem vive nela.
A ironia é que o Brasil da COP30 é o país que desrespeita os direitos básicos de quem vive na floresta. Na terça-feira (22), foi tornado público o brutal relato de uma mulher indígena da etnia Kokama, de 29 anos, mantida durante nove meses e 17 dias em uma cela mista na delegacia de Santo Antônio do Içá (AM). Ela denuncia ter sido estuprada repetidamente por quatro policiais militares e um guarda municipal — inclusive com o seu filho recém-nascido ao seu lado.
É revoltante que uma denúncia dessa magnitude tenha sido mantida sob sigilo institucional por tempo tão prolongado, apenas emergindo graças a ação judicial e a reportagens do portal Sumaúma.
Não se trata de um caso isolado. O episódio se soma a um histórico de violência de gênero, abuso de autoridade e impunidade, sobretudo contra indígenas e mulheres em situação de vulnerabilidade.
De Dubai a Baku, nos acarpetados fóruns internacionais, o Brasil reivindica posição de liderança na luta contra as mudanças climáticas, mas falha vergonhosamente em proteger as minorias em seu território. No momento em que o país se prepara para exibir ao mundo os povos da floresta, instituições de Estado assistem caladas a violações. Que tipo de credibilidade internacional pode ter uma nação que permite estupros coletivos contra indígenas pela polícia? Ou que defende o planeta, mas falha no plano doméstico?
Não há combate climático genuíno sem coerência entre discurso externo e políticas públicas internas. Defender a Amazônia também significa cuidar de quem vive nela — não só utilizá-la como vitrine.






