
De líderes como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Lula espera-se verborragia: frases de efeito lançadas ao vento, com o objetivo explícito de inflamar suas bases, muitas vezes marcadas pela irresponsabilidade retórica e pela interferência indevida em assuntos internos de outros países. Forjados no populismo — seja ele velho ou travestido de novo —, eles demonstram pouco ou nenhum respeito ao princípio da autodeterminação dos povos. Ignoram o decoro exigido pelo cargo que ocupam (ou ocuparam) e parecem alheios às complexidades e idiossincrasias das relações internacionais.
Por isso, quando uma instituição como o Departamento de Estado dos Estados Unidos resolve encampar a narrativa de Trump — que afirmou, nesta segunda-feira (7), que Bolsonaro é vítima de uma "caça às bruxas" —, a situação extrapola os limites do esperado. Trata-se de um gesto que não apenas destoa da tradição diplomática americana, zelosa em relação ao Brasil, como também afronta diretamente o histórico das boas relações bilaterais, construídas ao longo de mais de 200 anos e que, em geral, buscou se manter acima de picuinhas ideológicas, interesses de curto prazo ou governos de turno.
A declaração oficial da embaixada dos EUA em Brasília foi preocupante: "Jair Bolsonaro e sua família têm sido fortes parceiros dos Estados Unidos. A perseguição política contra ele, sua família e seus apoiadores é vergonhosa e desrespeita as tradições democráticas do Brasil. Reforçamos a declaração do presidente Trump. Estamos acompanhando de perto a situação."
O texto ecoa o discurso de Trump. E por que isso é grave? Porque institucionaliza, sob a chancela do Departamento de Estado, uma visão que não apenas deslegitima um poder da República brasileira — o Judiciário —, como remete aos tempos em que a América Latina era tratada como quintal de Washington. Este é um erro diplomático que revive fantasmas do intervencionismo e da superioridade moral autoproclamada.
O Itamaraty agiu corretamente ao convocar o encarregado de negócios dos EUA em Brasília. A prática, consagrada pela diplomacia internacional, é um sinal inequívoco de descontentamento formal. Trata-se de um gesto necessário diante de uma quebra de protocolo.
Mais do que nunca, é hora de recolocar a diplomacia no centro. De respirar fundo, de proteger as instituições republicanas de pressões externas e arroubos personalistas. E, sobretudo, de lembrar que relações entre Estados se constroem com respeito, sobriedade e compromisso com a legalidade — e não com declarações impulsivas, postagens em redes sociais ou lealdades pessoais mal disfarçadas de política externa.
É hora de chamar os adultos à mesa.

