
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Em 15 de julho de 1985 foi lançado o livro Brasil: Nunca Mais (Editora Vozes). A obra, realizada clandestinamente durante o período final da ditadura militar no Brasil, gerou uma importante documentação sobre a história do país. Agora, 40 anos depois, o jornalista, escritor e podcaster Camilo Vannuchi lança o podcast Nunca Mais (NAV Reportagens), contando os bastidores da obra.
Para quem nunca ouviu falar no livro Brasil: Nunca Mais, o que ele conta?
Foi lançado em julho de 1985, então já era presidente civil. (José) Sarney era presidente. Tancredo morre e desde abril já tinha um presidente civil no governo. E quem fez o livro esperou, justamente, que tivesse um presidente civil para poder publicar. Mas ele foi elaborado durante seis anos, entre 1979 e 1985, um trabalho clandestino que ninguém ficava sabendo, inclusive as pessoas envolvidas não contavam em casa com o que estavam trabalhando. Foi um projeto muito audacioso e inédito no Brasil, que ao longo de todo esse tempo se retiraram processos do Superior Tribunal Militar em Brasília. Os advogados que defendiam presos políticos, podiam retirar o processo para poder trabalhar em cima e tinham 24 horas para devolver. E a ideia, então, era arquivar, registrar, guardar, porque havia uma experiência anterior na ditadura do Estado Novo, do (Getúlio) Vargas, que quando acabou a ditadura, eles viram que todos os processos políticos tinham desaparecido, tinham sido queimados, destruídos, com a ideia de não deixar provas das violações praticadas pelo próprio Estado. Com o final, se encaminhando para o final da ditadura militar, mas precisamente a partir de agosto de 1979 quando teve a Lei da Anistia, alguns advogados, sobretudo, a Eny Raimundo Moreira, que era do Rio (de Janeiro), e o Luiz Eduardo Greenhalgh, de São Paulo, falaram que precisavam guardar esses processos, copiar. E aí se montou um esquema todo sigiloso, que o dom Paulo Evaristo Arns, (então) cardeal de São Paulo, funcionou como uma espécie de um protetor, uma pessoa que deu aval, e teve um financiamento do Conselho Mundial de Igrejas, que é uma instituição de diferentes igrejas protestantes na Europa, em Genebra. E tinha um escritório de xerox montado em Brasília, tudo sigilosamente, para retirar os processos, copiar, xerocar essas páginas, arquivar, mandar para São Paulo, microfilmar, fazer um "backup" e mandar para Genebra, pois se a repressão descobrisse, podia destruir com tudo aquilo. Mas por que tudo isso estava sendo feito? Porque esses processos mostravam, a partir de fontes oficiais, os próprios inquéritos policiais e militares, práticas de tortura, de morte de pessoas dentro do cárcere, dentro das prisões, assassinatos e desaparecimentos, como o caso do Rubens Paiva, casos de homicídios como o assassinato do Vladimir Herzog, por exemplo. E foram listados ali nominalmente 444 torturadores. Sabemos que até hoje nenhum torturador no Brasil foi condenado, indiciado ou preso, mas aquele processo permitiu que essa história fosse documentada. Somou mais de um milhão de páginas, eram 707 processos judiciais. E tudo isso foi transformado num livro de 300 páginas para que essa história pudesse ecoar e chegar em mais pessoas. Foi a principal e maior denúncia da tortura, das violações de direitos humanos praticadas durante a ditadura militar, uma espécie de primórdio de uma primeira Comissão Nacional da Verdade, muito tempo antes da Comissão Nacional da Verdade existir.
Eram provas dos próprios militares que acabaram construindo esse livro?
É um livro que não tem adjetivos, não tem achismo, não tem uma linguagem que seja "de esquerda". São processos trazendo depoimentos, indícios, aquilo que os advogados de defesa desses presos tinham apurado com perícia, por exemplo, fotografias das pessoas machucadas, coisas do tipo, e tudo aquilo já estava no poder do Estado. O Supremo Tribunal Militar tinha aquilo tramitado, a maioria já tinha acabado, claro, já tinha tido condenação, prisões, muita gente ficou presa três, quatro, cinco anos a partir da sentença do Superior Tribunal Militar. E é do Superior Tribunal Militar, que são os casos que ascenderam até a última instância, todos os casos que eram de prisões e indiciamentos de atitudes que eram consideradas crimes políticos, Lei de Segurança Nacional, enfim, que fazem parte dessa coleção de 707 processos. Eram episódios em que o Estado, as autoridades, sabiam, tinham conhecimento. Tem detalhes como o caso de Alexandre Vannuchi, que foi uma das vítimas fatais da ditadura, um estudante de geologia de São Paulo. Ele é de Sorocaba, no interior de São Paulo, mas estudava geologia na USP, tinha 22 anos quando foi assassinado sob tortura, em 1973. Tem pelo menos seis processos diferentes no STM que narram o que aconteceu com ele de verdade. Outros presos testemunharam o momento da morte dele, quando é arrastado da cela, morto, espalhando sangue pelo chão da carceragem. E a versão oficial do Estado, da Secretaria de Segurança Pública, que sai em todos os jornais naquela semana, é que ele havia morrido atropelado por um caminhão em um bairro de São Paulo, sendo que todo mundo que estava lá na carceragem naquele momento viu ele ser morto. Esses tipos de episódios estavam registrados nos processos que deram origem a um relatório com 6 mil páginas, e a partir disso, os autores do livro condensaram em 300 páginas. Esse relatório de 6 mil páginas está disponível hoje na internet, Brasil: Nunca Mais Digital, mas quando foi publicado em 1985, não teve evento de lançamento. O livro simplesmente começou a aparecer nas livrarias, e ele, em duas semanas, estava no topo das listas dos mais vendidos, ficou 91 semanas, o que dá um ano e nove meses, entre os dez livros mais vendidos do país. O livro saiu três meses depois do presidente civil chegar ao governo, então a democracia estava muito frágil, então todos os autores que trabalharam não assinam o livro, o livro é apócrifo, é feito por anônimos, só tem o nome ali do dom Paulo Evaristo Arns como o autor do prefácio.
Como a população recebeu o livro?
O contexto é super importante para entendermos essa repercussão. Primeiro, depois de 21 anos de ditadura, as pessoas estavam respirando com o primeiro presidente civil depois de todo esse tempo, não era um presidente eleito diretamente ainda, foi eleito no Colégio Eleitoral, mas não era mais um militar no poder. Meses antes, a Argentina tinha feito algo muito parecido, só que eles fizeram de uma maneira bem diferente, porque a ditadura na Argentina tinha acabado em 1983, e Raúl Alfonsín, presidente civil, quando assumiu já instituiu uma comissão oficial e eles publicam um relatório, conhecido como relatório Ernesto Sábato, porque o Ernesto Sábato, que é um escritor argentino importante, presidiu essa comissão. Mas eles publicam um livro também, de 300 páginas, chamado Nunca Mais, relatando tudo que eles tinham apurado nessa comissão, e tem coisas homéricas também impressionantes, como campos de concentração, 30 mil desaparecidos, é uma coisa gigantesca do que aconteceu na Argentina. É na esteira desse livro, o Ministério Público de lá começa a fazer um relatório para processar as pessoas, condenar as pessoas que tinham participado das violações de direitos, coisa que a gente não fez aqui até hoje. Quando sai o livro (no Brasil), você tem um processo com os países que tinham saído das ditaduras querendo contar e denunciar esses crimes que o próprio Estado cometeu, então há uma esperança muito grande de que essas pessoas seriam punidas, condenadas, e que aquilo nunca mais acontecesse. A ideia do "Nunca Mais", é um termo mais antigo do que isso, surge em 1945, a partir do holocausto, o Never Again, por conta do nazismo, do fascismo, daquela coisa de não acontecer nunca mais, mas ele é adotado na Argentina e no Brasil com a ideia da ditadura não acontecer mais nesses países. E é um baque, não havia esse conteúdo ainda, as pessoas não tinham contato com essa realidade. Tinha alguma coisa antes sobre tortura já na imprensa, claro, isso ainda antes da anistia, mas não um relatório poderoso como esse que listava quase 2 mil vítimas de tortura, mais de 200 desaparecidos políticos, e nomes de 444 torturadores, que é uma coisa surreal, não é que tinha torturador. Tinha nome, sobrenome. Pessoas que até hoje nunca sofreram nenhuma condenação, nenhum indiciamento, nem nada.
Esse estudante de geologia da USP, Alexandre Vannuchi, era seu parente?
Um primo em segundo grau meu.
E quanto era importante para vocês da família ter um livro que traz a história real sobre o que aconteceu com ele?
Não só para os familiares, porque nós sempre temos um discurso de que é quem são as vítimas da ditadura? "Ah, são 434 mortos e desaparecidos". Costumamos dizer que não, as vítimas da ditadura fomos todos. Qualquer pessoa que conviveu durante 21 anos com Estado de exceção. Notícias não circulavam no jornalismo, você tem censura, as pessoas não poderem escolher quem é que vai ser o próximo presidente, mas o principal deste livro é o fato de que é tudo a partir de documentos oficiais, porque a história do Alexandre Vannuchi, desde a morte dele, em março de 73, a família vinha denunciando, exigindo que o Estado se responsabilizasse, houve manifestações públicas, inclusive o próprio dom Paulo Evaristo Arns fez uma missa na Catedral da Sé, em São Paulo, já denunciando que ele não tinha morrido atropelado por um caminhão, mas que ele tinha sido morto pelo Estado. E o discurso era de que: "Ah, esses são os comunistas, os terroristas, os subversivos que estão dizendo". Em 1985, você tem um livro desse, que os militares não conseguem contrapor, porque a forma em que o livro foi elaborado foi de um jeito tão minuciosamente baseado em dados oficiais, com notas de rodapé dizendo exatamente em que processo e em que página que aquilo é contado. Não são violações de direitos que partem de um discurso, de uma narrativa, uma coisa que está nos autos. E ali mostrava aberrações, mostrava a tortura sendo feita com os torturadores levando crianças de quatro, cinco anos para dentro do cárcere, ameaçando torturar, chegando a machucar crianças para exigir que os pais falassem qualquer coisa. Tem um capítulo que detalha o uso de animais na tortura. Tem a Miriam Leitão, jornalista conhecida de economia, presa dentro de uma cela solitária, com uma cobra junto com ela. A Dulce Pandolfi, pernambucana, mas presa no Rio de Janeiro, foi presa com um jacaré. São coisas que foram muito assustadoras quando esse livro foi lançado. Era um tema, quando existia alguma conversa sobre isso, não era uma pública nos grandes veículos de comunicação, isso aparecia muito na imprensa alternativa, e isso era sempre tratado de um jeito como se fosse uma bolha, um discurso dos terroristas, dos comunistas. Quando chega naquele livro, publicado pela Vozes, muitos relatavam como ler aquele livro foi impactante. Pessoas lendo com 16, 17, 18 anos de idade, e tendo contato pela primeira vez com um governo tão troglodita quanto aquele, e depois essa ideia de você ter detalhes que não podiam ser negados. Aquilo era uma coisa muito clara, precisa, séria, correta e embasada do que foram essas violações de direitos.
Agora, 40 anos depois, nasce o podcast Nunca Mais. Como foi a ideia de criar esse podcast e o que ele traz?
Ele parte da efeméride, aproveitar a data 15 de julho, então 40 anos depois, e vem de uma experiência minha, de outras duas séries em podcast narrativo, anteriores a essa, que eu também falo de histórias da ditadura que não eram conhecidas: Vala de Perus, que é um crime bárbaro de ocultação de 1049 ossadas humanas no cemitério municipal de São Paulo, e o outro chama Eu Só Disse Meu Nome, que publiquei no ano passado com a história deste primo Alexandre Vannuchi. Agora o Nunca Mais é para contar os bastidores do livro, que nunca saiu de catálogo. Foi lançado, esta semana, a 43ª edição desse livro, é um best-seller da Vozes, mas os bastidores até hoje não havia quem eram os autores ou como é que foi feito. E eu sabendo dessas histórias, ao longo das minhas pesquisas, a ideia foi contar quem foram essas pessoas, como é que nasceu esse projeto, com que objetivos, quais foram os entraves no meio do caminho. Eles tiveram que mudar três vezes de endereço, suspeitando de que tinham descoberto o que estava sendo feito lá, porque era em sigilo. Como é que os recursos financeiros chegavam, toda essa história de como foi sendo feita e o que esse livro traz de fato, então é um thriller contando algo sendo feito nos bastidores sem que as pessoas estivessem sabendo, para que no momento oportuno aquilo fosse publicado e viesse a público. E a ideia de lembrar essa história e pensar que muita gente não sabe o que foi aquilo, nunca teve contato, e poder ampliar esse alcance na plataforma de podcast, alcançando pessoas que têm mais dificuldade com leitura ou de acesso a um livro, é essa ideia de disseminar o conteúdo. E também homenagear essas pessoas: foram advogados, religiosos, pesquisadores e jornalistas que toparam essa empreitada, colocando o pescoço em risco para trabalhar durante muito tempo, de forma basicamente clandestina, sem que as pessoas soubessem o que estava fazendo.
Quem foi ouvido e como foi a produção do podcast?
São cinco episódios. Uma série razoavelmente longa, porque cada episódio tem 50 minutos, com detalhes como é que o projeto nasceu e a montagem da operação: como xerocar, como microfilmar, quem é que está trabalhando nisso, a ideia de que alguém precisava ler esses processos, sistematizar o que estão dizendo ali, quais torturadores são citados, quais locais de tortura, quais práticas de tortura, que mortes são mencionadas e depois a elaboração do livro, a repercussão e também a ideia de como é que os militares respondem a esse livro, que eles também tentam rebater, publicam dois outros livros, mas fica até sendo uma coisa um pouco ridícula, porque ali são pessoas incomodadas com aquela história muito bem embasada, muito bem endossada. E ouvimos as pessoas que estão vivas. O projeto surge com dois advogados, que eram os diretores do Comitê Brasileiro pela Anistia, em 1979, que é a Eny Raimundo Moreira e o Luiz Eduardo Greenhalgh. A Eny faleceu faz dois ou três anos e o Greenhalgh está vivo, então falamos com ele. Os dois resolvem que precisam fazer alguma coisa, eram advogados muito ativos como defensores de presos políticos, e eles vão buscar o dom Paulo Evaristo Arns para ver como é que fazia, se ele podia ajudar nisso, e o dom Paulo, junto com um reverendo presbiteriano chamado Jaime Wright, eles criam a estrutura e os recursos para criar esse grupo de trabalho. Os dois já não estão mais vivos, mas das pessoas que não estão vivas também recuperamos muito depoimentos. E daí você tem um advogado em Brasília que é a pessoa focal ali, que vai ter acesso ao STM, retirar os processos, que é o Sigmaringa Seixas, que também faleceu. Mas tem a equipe com quase todo mundo vivo. A equipe que produziu essa pesquisa, que elaborou e que depois culminou na escrita do livro. Localizamos, por exemplo, pessoas anônimas que nunca tinham aparecido, como o rapaz que era o responsável por tirar o xerox, que passava ali oito ou dez horas por dia, era um menino de 17 anos, chamado Avel. Depois um outro rapaz, também adolescente de 17 anos de idade, que microfilmava todo esse material em São Paulo, chamado Zé do Egito, nunca tinha aparecido publicamente, está no podcast. O livro foi feito principalmente por três jornalistas que tiveram esse trabalho de ler o relatório grande de 6 mil e tantas páginas. A coordenação do trabalho era do Paulo Vannuchi, que é meu pai, jornalista e depois foi ministro de Direitos Humanos (entre 2005 e 2010). Ele e o Greenhalgh, como coordenadores, chamaram o Frei Betto e o Ricardo Kotscho para serem os redatores, dois jornalistas e escritores premiados, que ficaram ali 8 meses, 10 meses trabalhando nisso. Também ouvimos eles, para compor essa história, esse mosaico, e contar com todo o suspense e emoção uma história de algo dessa grandeza.
Quanto tempo de produção do podcast?
Desde janeiro.
Qual a importância de ter um podcast narrando essa história?
Primeira coisa é você contar essa história para muita gente que não conhece, que não ouviu falar, ou que é muito mais jovem. Acho que é um objetivo muito importante continuarmos falando das histórias da ditadura para novas gerações, sobretudo no momento em que o tema da ditadura, que muitos de nós já imaginávamos que estaria superado, percebemos que não está. Teve muita gente, em um período recente no Brasil, achando que era bom voltar à ditadura, com saudade, ou dizendo que a ditadura só foi agressiva ou dura para pessoas que eram subversivas, terroristas. E não é verdade. Temos uma história comprovada e esse livro mostra isso, do quanto a ditadura foi autoritária, violenta, com muita gente, e não só com as pessoas que tinham alguma atividade política. Se pensar só nos 8 mil mortos indígenas que a ditadura compila, conseguimos pensar nisso. Acho que é importante o tema voltar. Estamos vivendo no momento um processo no Supremo Tribunal Federal, uma série de pessoas acusadas, indiciadas por tramar um golpe de Estado, à democracia, incluindo a hipótese de assassinato do presidente da República, do vice-presidente. Acho que é extremamente importante difundir essa história e em todas as plataformas possíveis, em áudio, em texto, em vídeo, ou o que mais vier.


