
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Uma das grandes vozes durante a pandemia de Covid-19, a doutora em Microbiologia, presidente do Instituto Questão de Ciência, professora na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Columbia University, Natália Pasternak, esteve no fim de semana no Festival Fronteiras. Ela conversou com a coluna:
As emergências de Porto Alegre estão lotadas com casos de vírus respiratórios. A prefeitura também verificou que todas as mortes por gripe e Covid na Capital em 2025 ocorreram entre pessoas não vacinadas. Nós desaprendemos as lições da pandemia? Ou nem aprendemos?
É complicado falar de aprendizado com essas grandes pandemias. Historicamente, nunca aprendemos grande coisa com nenhuma delas. Acho que, regionalmente, aprendemos com algumas. Então, se você pegar os países que passaram pela crise do SARS-1 e do MERS (síndrome respiratória do Médio Oriente), eles estavam mais preparados para enfrentar a pandemia de Covid-19. Mas foi algo extremamente localizado. E daí são países que também já têm uma tradição maior de uso de máscaras e uma população que entende melhor as medidas preventivas. No caso do Brasil, dos Estados Unidos, que são países que não têm essa tradição tão grande, de uma população que é mais ativa nas medidas de prevenção, acho que esse aprendizado é mais complicado mesmo. É só a gente ver o que está acontecendo agora com a gripe aviária nos Estados Unidos, que a impressão que temos é de que realmente não se aprendeu nada. Estamos passando de novo por um período onde a gente precisa de informação de qualidade circulando, de treinamento de profissionais, de distribuição de EPIs, testar os trabalhadores rurais. E nada disso está acontecendo. O que acontece hoje no sul do Brasil, acho que não é diferente do que acontece na maior parte dos países da América. Acho que esse aprendizado é difícil, principalmente para países como o Brasil e os Estados Unidos, que são muito grandes, muito descentralizados em termos de governo, onde cada Estado, cada município tem de cuidar das suas próprias iniciativas de prevenção, de rede hospitalar, de atendimento, de informação, então acho que realmente fica complicado. E lembrando que passamos durante a pandemia por um governo negacionista, então, demora um pouco para conseguirmos retornar à mentalidade que tínhamos antes de vacinar e de conseguir passar essa informação de que as vacinas são seguras, são eficazes, são necessárias.
A cada pandemia nós aprendemos? E como fazer para que estes aprendizados não caiam no esquecimento?
Acho que para tentar olhar do lado otimista, sim, aprendemos. Pelo menos aprendemos o que é necessário fazer. Mas conseguir implementar é diferente, porque depende de cenário político. Mas acho que pelo menos hoje sabemos quais são as medidas necessárias: uma comunicação muito transparente com a população, uma comunicação sobre incerteza, sobre o que ainda não sabemos, o que estamos estudando, o que ainda precisamos descobrir e o que isso pode mudar quando for descoberto. Sabemos o que precisa ser feito em termos de vigilância epidemiológica, quais são os passos que precisam ser implementados. Sabemos que é preciso treinar os trabalhadores de saúde para fazer atendimento, para passar informação correta. Sabemos que vai precisar comprar testes ou desenvolver testes, então acho que nesse sentido o aprendizado existe, sabemos o que tem que fazer, mas na hora de implementar, isso precisa de vontade política, precisa de investimento, e vai depender de cada governo. Então acho que são dois aspectos: temos manuais melhores de como reagir a uma epidemia ou a uma pandemia, mas seguir esses manuais vai depender de quem está no poder.
Você citou recentemente o cargo de conselheiro científico para governos. O que é esse cargo?
Não é uma função nova. Em alguns países, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, é um cargo que existe desde o pós-Segunda Guerra Mundial. E é um cargo que eles chamam de "Chief Scientific Advisor", seria um assessor especial para assuntos científicos. Nós propusemos, por meio do Instituto Questão de Ciência, que o Brasil criasse esse cargo já na época da transição para o governo Lula, mas aparentemente ninguém gostou muito da nossa ideia. Esse assessor especial para assuntos científicos é alguém que aconselha diretamente o primeiro-ministro ou o presidente, ou até todo o gabinete, sobre como a ciência deve ser usada para políticas públicas. Um ministro de ciência e tecnologia, ele tem de cuidar do ecossistema de ciência no país. Ele vai discutir financiamento, agências, regulamentações. E o assessor não. Ele estaria discutindo o uso da ciência, é um tradutor de ciência para o presidente e para o primeiro-ministro. Na pandemia, quem ocupava esse cargo na Inglaterra era o Patrick Vallance, ele aconselhava diretamente o (então) primeiro-ministro Boris Johnson. E ele até fez algumas aparições públicas como Chief Scientific Advisor, o que nem é muito comum, geralmente é um cargo mais de portas fechadas. Porque naquele momento ele achou que era necessário um esclarecimento direto para a população e não só para o primeiro-ministro. Esse cargo também existe já há bastante tempo na Nova Zelândia, na Austrália, na Índia. São países do Commonwealth, de origem anglo-saxônica ou que foram colonizados por governos do Commonwealth. Existe uma tradição cultural desses países de ter uma pessoa nesse cargo. Outros países não têm e usam como consultores, por exemplo, as academias de ciência, ou no caso da União Europeia, até pouco tempo atrás eles tinham um Chief Scientific Advisor, mas substituíram por um comitê, com sete assessores científicos que vão fazer o mesmo papel desse conselheiro individual. É um cargo bastante interessante, porque tem os ouvidos diretamente do presidente ou do primeiro-ministro. É um cargo de confiança. E essa confiança em momentos de crise pode ser essencial, porque é alguém que o governante pode perguntar: "Me explica aí exatamente por que você sabe que as vacinas são seguras e são eficazes e qual que é a melhor vacina". Ou "qual que é a melhor estratégia nesse momento". Para o Brasil, eu acho que seria interessante ter alguém ocupando esse cargo, principalmente se fosse no modelo da Inglaterra, do Reino Unido, que esse cargo é de um servidor público, não é um cargo eleito, não é um cargo político e não é uma indicação do presidente, é um servidor. É alguém que tem uma certa independência do cenário político para poder fazer um aconselhamento mais neutro politicamente. É um papel de saber traduzir a ciência para termos leigos, de saber fazer essa síntese de evidências. E eu sempre falo para os meus alunos que a ciência deve ser uma das ferramentas para informar as políticas públicas, para informar o gestor. A decisão final sempre vai ser do gestor, mas um assessor científico pode trazer a evidência científica como uma ferramenta importante para ser usada nesse processo decisório.
Existe dificuldade para aliar ciência e comunicação?
Existe. Acho que existe uma dificuldade muito grande, principalmente pela maneira como aprendemos ciências na escola. E isso vale para o Brasil, para os Estados Unidos, e para os países da Europa. É uma maneira meio universal que aprendemos como se fosse um corpo fechado de conhecimento, que está tudo pronto e você tem que decorar porque vai cair na prova com respostas de sim ou não, certo ou errado. E eu não consigo imaginar nada menos científico do que isso. A ciência não é sim ou não, certo ou errado. A ciência é uma questão de incertezas e probabilidades. É um processo de investigação. Mas não aprendemos na escola como um processo de investigação. E precisamos entender e memorizar. E daí você vai explicar para essas pessoas que vacina funciona numa questão de probabilidade e frequência e a pessoa fala: "Não cara, não é assim. A vacina ou funciona ou não funciona. Ou funciona e eu não pego a doença". Não, não é bem assim, porque você pode ser vacinado e mesmo assim pegar a doença, porque depende do tipo de vacina, depende do tipo de doença, da probabilidade de circulação daquele vírus ou daquela bactéria, se está circulando muito ou pouco e depende de um monte de fatores. E esse depende, ele não faz parte da nossa educação. Não estamos acostumados a pensar em termos de incerteza e probabilidade. Mas a ciência é feita disso. Então acho que temos um grande desafio para explicar para a população o que não sabemos e não só o que já sabemos. E explicar como a ciência é um processo investigativo, e muitas vezes durante esse processo mudamos de ideia diante de novas evidências que vão surgindo. E isso aconteceu durante a pandemia de uma maneira muito didática com a questão das máscaras. No começo, achamos que não precisaria porque parecia que o vírus se transmitia por superfície de contato. Aí depois vimos que não, o vírus era realmente respiratório, se transmitia por gotículas e precisaríamos ter uma barreira que diminuísse a probabilidade do contágio. E falamos que mudamos de ideia e novas evidências mostraram que precisaria usar a máscara sim. Mas, olha, "a máscara não vai proteger completamente, não é mágica, ela diminui a probabilidade de você se contagiar". Então esse é o desafio, precisamos saber comunicar a incerteza, a probabilidade. E precisamos saber comunicar risco, porque as pessoas também querem viver numa sociedade com risco zero. "Ah, mas eu quero uma vacina que seja 100% eficaz, com 0% de efeitos colaterais". Tá bom, eu também quero, só que isso não existe. Isso não existe nem pra vacina, nem pra nenhum medicamento. Isso não existe nem para atravessar a rua.
E como contrabalancear a ansiedade das pessoas nesse ponto com as informações claras e incertas?
Acho que é justamente construindo essa comunicação do processo da ciência, porque as pessoas querem respostas simples e eficazes. Quem não quer? Quem não quer um remédio que é superfácil, que você compra na farmácia, toma em casa e daí garante que você não vai ficar doente? Todo mundo quer, só que não é mágico, a vida não é mágica. A vida é feita de incertezas e probabilidades, e a medicina também. Não vamos ter pílulas mágicas contra o câncer, contra a Covid, contra o sarampo. Temos vacinas e medicamentos, e eles vão funcionar de acordo com uma probabilidade e dentro de contextos específicos. Precisamos explicar o processo da ciência, explicar como a ciência funciona, como os remédios e vacinas são testados, o que podemos esperar deles, não criar essas expectativas impossíveis. Quando falamos que precisamos que as pessoas confiem na ciência, ou nos cientistas, eu sempre olho para essa frase com um certo desconforto, porque eu não quero que as pessoas tenham uma confiança cega. É importante que as pessoas saibam questionar, mas eu quero que as pessoas tenham uma confiança no processo científico, no processo de investigação. Quero que elas entendam e confiem no processo, porque esse processo tem se mostrado muito eficaz durante os tempos. Graças ao processo científico de investigação é que temos antibióticos, vacinas, tecnologias que funcionam. Confiar no processo e entender o processo é muito mais importante do que ficar repetindo esse jargão de que precisamos aumentar a confiança do público na ciência. A confiança vem de um bom entendimento. E se não soubermos promover esse bom entendimento, essa confiança vai ser cega. E uma confiança cega é muito fácil de abalar, porque qualquer coisinha que faça parecer que a ciência falhou, vai abalar essa confiança, as pessoas vão se sentir traídas porque alguma coisa não funcionou. Precisamos investir muito mais na confiança no processo e no entendimento.
Em janeiro, os EUA saíram da Organização Mundial da Saúde (OMS), e agora a Argentina seguiu o mesmo posicionamento. Como você avalia isso?
É preocupante por vários motivos. No caso dos Estados Unidos, pelo motivo do financiamento, pela contribuição que eles faziam pra OMS, que era, como país, a maior contribuição. E esse financiamento vai fazer falta para a OMS, então ela fica defasada. E na questão da saída ideológica, que não tem a ver com o financiamento, mas da questão da contribuição. A saída da Argentina também, porque são países que, ao se retirarem da OMS, retiram o seu compromisso com a OMS, que é o compromisso justamente de compartilhar dados de ciência, dados epidemiológicos, de participar das diretrizes da OMS, no caso, por exemplo, de uma nova pandemia, que os países membros se comprometem a compartilhar os dados, informação, dados de vacinas. Ter países saindo desse compromisso é sempre preocupante, porque são países importantes, que têm bastante influência nas Américas e que vão deixar de ter esse compromisso com a saúde pública global. Acho que tem também um aspecto da mensagem que isso passa, que é aquela mensagem meio da teoria da conspiração, de que nós não queremos mais compartilhar nada, não queremos mais fazer parte da OMS, porque é um antro comunista. Acho que tem toda essa questão conspiratória também, que passa uma mensagem complicada para a população.




