
A três dias do conclave — e ainda que o cardeal italiano Pietro Parolin seja o favorito para o trono de São Pedro —, há três papabile (papáveis) que, nos bastidores da Santa Sé, correm à boca pequena. Afinal, se Francisco alargou a Igreja Católica para a África e Ásia, por que não pensarmos em um papa desses continentes.
Sobre Ásia, prometo escrever nos próximos dias, até quarta-feira (7), início do conclave. Mas, sobre o continente africano, há muitas expectativas — e algumas chances.
Primeiro, voltemos à História. A Igreja já teve três papas africanos, mas, no período da Antiguidade, era difícil classificá-los como tal - especialmente porque a região de onde vinham, o norte da África, era um mix de romanos, berberes e africanos. Não é o caso da concepção moderna de africano.
Os papas foram Vitor I (189-198), Melquiades (311-314) e Gelásio (492-496). Se você fizer o cálculo entre os anos de pontificado, verá que nenhum durou mais do que quatro anos no trono de São Pedro, além de serem oriundos de uma região que, hoje, é uma África muito mais identificada com o Islã do que com o catolicismo/cristianismo.
De fato, a levarmos em conta esses pontos, a Igreja nunca teve um papa da chamada África negra. E, neste conclave, os que mais se destacam são três: o primeiro deles Peter Turkson, bispo emérito da Costa do Cabo, em Gana. Foi o primeiro religioso de seu país a chegar ao posto de cardeal. Tem 76 anos, e, pode-se dizer, segue os passos de Francisco em alguns pontos, como direitos humanos e desigualdade social. Em temas como LGBTQI+, assuntos nos quais o clero africano costuma ser mais conservador, ele pode ser considerado um moderado. Criado cardial por João Paulo II, participa de seu terceiro conclave.

Ok, eu sei que você está esperando um opositor, afinal, nessa nossa sociedade polarizada, o que muita gente espera é um adversário. Lá vai: Robert Sarah, 79 anos, nascido em Guiné, prefeito-emérito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, além de arcebispo emérito de Conakry (Em 1979, ele se tornou o mais jovem bispo do mundo). É contrário ao aborto. Ele ainda disse que a Igreja não tem um "problema com homossexualidade".

— Há um problema de pecados e infidelidade — afirmou ao site Catholic Herald em 2019 - Não vamos perpetuar o vocabulário da 'ideologia LGBT'. Homossexualidade não define a identidade das pessoas. Descreve certos atos perversos, pecaminosos e depravados. Para estes atos, como para outros pecados, os remédios são conhecidos. Devemos nos voltar a Cristo. Foi declarado cardial pelo papa Beno 16.
Virou o preferido do movimento anti-woke. Se você não está familiarizado com a expressão, eu explico: "É uma reação crítica — muitas vezes conservadora ou de direita — contra ideias e práticas associadas ao que se convencionou chamar de “woke”.
O termo, originalmente do inglês afro-americano, significava estar “acordado” ou atento a injustiças sociais e raciais. Com o tempo, passou a designar uma postura politicamente engajada em defesa de minorias, direitos civis, igualdade de gênero, pautas LGBTQIA+, justiça racial e inclusão. Donald Trump e seus seguidores costumam falar bastante sobre isso, contrários ao que seria a ideologia "woke".
Há um terceiro papabile africano: Fridolin Ambongo Besungu, 65 anos, da República Democrática do Congo. O cardeal Ambongo é conhecido por sua atuação em defesa dos direitos humanos, justiça social e meio ambiente. Tem sido uma voz crítica contra a exploração dos recursos naturais da África por potências estrangeiras e contra a corrupção em seu país. No entanto, em questões doutrinárias, mantém posições conservadoras, especialmente em relação à moral sexual. Em 2023, liderou a oposição dos bispos africanos à declaração "Fiducia Supplicans", que permitia a bênção de casais do mesmo sexo, argumentando que tal prática seria incompatível com a cultura africana e poderia ser vista como uma forma de "colonialismo cultural".

O perfil diverso dos três africanos mais cotados confirma o que mais tenho ouvido aqui, em Roma e no Vaticano: Francisco abriu a Igreja, hoje, 80% dos cardeais votantes foram criados pelo papa argentino, mas cada um carrega na bagagem suas características próprias, do lugar e cultura de onde são originários. O fato de terem sido nomeados por Francisco não significa que seguirão seus passos.
As chances de o sucessor ser africano e negro existem, ainda assim, neste momento, as apostas recaem sobre os europeus — e, em especial, os italianos.





