
A poucos dias de entrar no conclave que elegerá o sucessor de Francisco, cardeal e arcebispo metropolitano de Porto Alegre, dom Jaime Spengler, espera que a escolha do novo papa, dessa vez, vai demorar mais do que em ocasiões anteriores. A diversidade do colégio cardinalício impõe desafios: os cardeais se conhecem pouco, o que dificulta a escolha.
Os cardeais ainda se reunião neste sábado (3), na segunda (5) e na terça-feira (6) para as congregações gerais, antes de se fecharem na Capela Sistina. Na sexta-feira (2), ele recebeu a coluna no Colégio Pio-Brasileiro para essa entrevista.
Um dos pontos positivos de Francisco foi ter diversificado o colégio de cardeais, mas isso faz com que vocês não se conheçam entre si?
Talvez o grande mérito do papa Francisco tenha sido, justamente, ter internacionalizado o colégio. Gosto de citar dois exemplos: o cardeal do Irã, um país onde a presença cristã é mínima, e o cardeal da Mongólia, onde há 1,5 mil católicos. São dois exemplos que falam alto. Isso expressa a universalidade da Igreja. É muito bonito. Mas também nos traz uma dificuldade no sentido de conhecimento recíproco. Nós nos conhecemos pouco. Nesses dias o trabalho que temos pela frente, na sala, é ouvir o que cada um pode ou tem a dizer e a compartilhar. Mas o tempo também é muito exíguo. É uma conversa, um diálogo, uma apresentação.
Cada um pode pedir a palavra e falar?
Você tem, segundo o critério oficial, cinco minutos. São quase 200 cardeais. Não é que os cinco minutos sejam rigidamente observados. Tem aqueles que falam 15 minutos. Então, é quase impossível que todos tenham a possibilidade de se manifestar. Temos amanhã. Segunda e terça-feira.
O senhor se manifestou perante o colégio, tomou a palavra?
Sim, claro. É um espaço livre, não só um direito, mas um dever.
O senhor pode compartilhar o que falou perante os demais cardeais?
Uma das grandes coisas foi sobre legado do papa Francisco. Ele levou para o túmulo os sapatos de uma Igreja que buscou ser mais próxima. De alguém que desejou e fez todo o possível para que ela realmente estivesse próxima dos mais necessitados. Os sapatos de alguém que se empenhou para promover a construção de pontes entre realidades e também geopolíticas.
Pelo seu discurso, pode-se depreender que deseja que o futuro papa siga nessa direção.
É impossível imaginar ou pensar uma espécie de ruptura. É óbvio que cada papa traz a sua personalidade, o seu jeito de trabalho, o seu modo de propor a mensagem, mas sempre dentro de um espírito de continuidade. João Paulo II era um homem de uma capacidade extraordinária e marcou a época. Bento XVI, um homem tímido, mas, ao mesmo tempo de uma capacidade intelectual extraordinária. Foi, certamente, senão o maior, um dos maiores intelectuais do século XX. Depois, vem um Francisco, que continua, a seu modo, aquilo que ele recebeu e dá um impulso ainda maior. Nesse contexto, existe aí um aspecto que eu creio não foi ainda suficientemente tematizado. Qual é o estadista hoje que a imprensa ou mesmo a classe política se refere?
Há uma crise de liderança no mundo.
Nós não temos (líderes).
Então vocês estão tentando achar um modelo ideal de papa?
Francisco foi esse homem. É até emblemática aquela cena, antes da missa do funeral, do encontro de Volodimyr Zelensky com Donald Trump, dialogando um na frente do outro no interior da Basílica de São Pedro vazia.
Uma vez que vocês não se conhecem entre si, faz sentido prever que o conclave será mais longo?
Faz, eu creio que sim. Eu imagino que se faz necessário um tempo alargado para que se chegue a um nome que realmente corresponda aos desafios de hoje. Por outro lado, temos uma expressão entre nós que é muito forte: Deus capacita àqueles que escolhe. E aqui entra toda a dimensão da graça. É a primeira vez que participo de um conclave. E não tenho pretensão nenhuma de... Espero que o que vier a ser escolhido possa desenvolver por muitos anos o serviço.
Não tem pretensão de que haja um outro conclave tão cedo?
Faço votos aqui. Mas, às vezes, quem vê todo esse espírito, essa dinâmica, imagina uma espécie de jogo político ou coisa que valha. Não estou percebendo nada disso. Muito pelo contrário.
Como assim?
Internamente, a gente não percebe isso (o jogo político). Muito pelo contrário. Há uma preocupação muito grande, um empenho de muitos, ao menos do que nós ouvimos nos diálogos, de realmente buscar, primeiro, alguém que realmente seja capaz de levar adiante a obra da evangelização hoje no mundo, que é um grande desafio. Temos ali em Porto Alegre o Instituto do Cérebro, o diretor Jaderson Costa da Costa diz o seguinte: A geração que está aí hoje, até a faixa etária dos 18 anos, tem outra estrutura lógica, que não é mais a nossa. Como transmitir a mensagem às novas gerações? Que pedagogia, que metodologia, que linguagem usar? Então, acho que é mais do que uma exigência encontrar alguém que esteja aberto a esse novo que está aí diante de nós e que oferece um mundo de possibilidades distintas. Às vezes, há quem ache que seria bom voltar atrás. Não existe voltar atrás. Estamos no tempo. Vou usar uma expressão deste ano que é forte para nós: peregrinos de esperança. A esperança é um olhar para frente. Esperança não é sinônimo de otimismo. Mas é uma abertura de espírito para aquilo que o tempo, de alguma forma, espera de nós.
Fala-se que, em 2005, o então cardeal Mário Bergoglio, ao começar a despontar, em segundo lugar, pediu para que não votassem nele para não dividir a Igreja. Há hoje essa preocupação com a unidade?
A Igreja é essencialmente comunhão. É essencialmente unidade. E qualquer perspectiva de uma possível ruptura significaria negar aquilo que faz parte da identidade da instituição.
Vocês são homens muito sábios, preparados, e com uma trajetória respeitada. Como é colocar todos os cardeais em uma sala para conversar e buscar o perfil de um papa?
É uma experiência belíssima poder escutar pessoas provenientes de regiões tão diversas, com experiências sociais, políticas e eclesiais próprias, da região de onde provêm. É uma riqueza enorme. Ousaria dizer que não tem curso universitário ou experiência outra que possa te oferecer uma compreensão daquilo que é a igreja no mundo como um encontro dessa magnitude. São homens de igreja, vêm de uma experiência de fé, com uma bagagem cultural extraordinária, doutores em diversas áreas do conhecimento, e que não desejam outra coisa, senão o bem da instituição.
O senhor está prestes a entrar no conclave. Como está vivendo isso do ponto de vista humano?
Primeiro é um privilégio único poder participar de um processo como esse, é para poucos. Temos de reconhecer. Por outro lado, um segundo aspecto, seja em que nível nós estivermos no âmbito da sociedade, ou que forma de vida você escolheu ou abraçou, quando temos uma convicção interior de que gostamos do que somos e amamos o que fazemos, seja profissionalmente, seja como padre, como pai e mãe de família, como solteiro, talvez, engajado no mundo, a gente tem de estar pronto para o que der e vier. Quando damos um passo na vida, creio que não nos pertencemos mais. Isso vale para a vida de um casal. Se, na relação, um quiser dominar o outro, não vai dar certo. Você não se pertence mais. Ela não se pertence mais a si mesma e vice-versa. No ministério ordenado é a mesma coisa. É claro que a forma de viver isto é distinta, mas a dinâmica que está por trás e sustenta é a mesma.
Mas não assusta o tamanho disso tudo, um conclave, a hierarquia, a Cúria, as expectativas?
Claro que assusta. Também pelo momento que estamos vivendo na sociedade: crise de democracias, o sistema neoliberal que não proporcionou aquilo que prometia. Se até recentemente em alguns setores se falava de uma sociedade marcada pelo cansaço, hoje se fala de uma sociedade marcada pelo medo. Nesse contexto, você ser presença, no nosso caso, de fé, de esperança, claro que isso causa angústia. Não no sentido psicológico, mas uma tensão, eu diria, existencial. Isso vale também para quem é pai, mãe. No contexto de preparar um filho para o tempo, para a história, para a sociedade, profissionalmente, afetivamente, socialmente. Voltando ao conclave, é um privilégio, por um lado, uma alegria, sim, mas, ao mesmo tempo, uma responsabilidade.
O senhor já se imaginou entrando na Capela Sistina na quarta-feira?
Já me imaginei, sim. É claro que tudo é muito estranho. São três meses que estamos nesse colégio. Pensar e observar também, escutar nesses dias, cada um (dos cardeais) se expressando, se apresentando e tentar, a partir disso identificar, talvez, um, dois ou três nomes possíveis. Não é fácil.
O senhor já se imaginou caso seja eleito? Qualquer cardeal pode ser.
Todos estão na pista (risos).
Como é isso na sua cabeça?
Pelo tempo mesmo que nós estamos na colégio, somos uns bons desconhecidos. Então, nesse sentido, me sinto muito tranquilo, sereno. Daqui, vou a Lisboa. Dias 12 e 13, devo estar em Fátima. Em seguida, volto para cá.
Então, até o dia 12 o conclave termina?
Se começa dia 7, teremos 8, 9, 10, 11... A menos que se crie um impasse tão grande, para o qual também a gente já está mais ou menos preparado. Mas nunca sabemos.
Voltando à questão, o senhor está tranquilo com relação a ser pouco conhecido, logo não seria o escolhidos?
Sim, sim, sim. É claro que a CNBB tem um lugar de destaque. É claro também que muitos olham para a América Latina com expectativa. Isso é verdade. A América Latina é um laboratório. Então, mais do que isso, não posso dizer mais nada (risos).





