
A conclusão da comissão do Congresso dos Estados Unidos que investigou o ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, serve como alerta a políticos de diferentes matizes, mundo afora, sobre eventuais gestos que atentem à democracia, como o questionamento à lisura do processo eleitoral ou o resultado da eleição. Candidato à reeleição, Donald Trump e seus apoiadores radicais esgaçaram a corda, tensionaram, ao limite, a democracia americana.
Um dos resultados da investigação era esperado: o ex-presidente pode ser alvo de processo criminal por quatro acusações. O outro, ato contínuo da política, o republicando já não é única figurinha carimbada do álbum da próxima eleição, em 2024.
Trump foi acusado de:
- Conspiração para fraudar o resultado eleitoral
- Conspiração para fazer uma declaração falsa
- Obstrução do procedimento oficial
- Insurreição
As três primeiras são de fácil comprovação. Trump conspirou antes, durante e depois da votação nos EUA, em 8 novembro de 2010. Antes mesmo do dia da eleição, ele vinha defendendo, em comícios e manifestações pela internet - que, inclusive, recebi ao estar inscrito nas redes republicanas -, que o voto poderia ser fraudado. Por isso, exigia o registro impresso da escolha do eleitor. Ou seja, o argumento para dizer que o resultado eleitoral seria alterado estava sendo construído muito antes do dia da eleição. Ainda em meio à apuração, Trump tentou convencer autoridades do Estado da Geórgia, onde a apuração mostrava empate técnico, a favorecê-lo. Não conseguiu graças a iniciativas individuais de servidores anônimos. Nos dias que antecederam a confirmação, pelo Congresso, do resultado das urnas, o presidente tentou convencer o próprio vice-presidente, Mike Pence, que presidiria a sessão conjunta do Congresso, em 6 de janeiro, a rejeitar o resultado eleitoral. Não conseguiu de novo - e isso quase custou sua integridade física, no ataque ao Capitólio.
Todas essas acusações estão lastreadas por áudios, inclusive tendo Trump como interlocutor, e vídeos do Congresso sob ataque.
A quarta acusação é a mais difícil de ser provada - ainda que as horas de silêncio de Trump e a maneira como o então presidente se dirigiu aos manifestantes - "Hora de voltar para casa, meninos" - deponham contra ele.
Resultado de 18 meses de investigação, o documento da comissão do Congresso é, talvez, o mais importante desde o texto elaborado pelo grupo parlamentar que analisou como a maior potência do planeta havia falhado nos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Naquele relatório, de 21 anos atrás, a comissão bipartidária concluiu que faltou imaginação às autoridades americanas vislumbrarem um atentado terrorista em plena Nova York. Não é exagero dizer que, no 6 de janeiro de 2021, faltou também às autoridades políticas, equipes de segurança e imprensa imaginarem o que viria.
Ao Brasil de 2022/2023, não haverá o benefício da dúvida.


