
É tradição, em qualquer democracia, o candidato derrotado reconhecer a vitória do adversário antes do final da apuração, quando a vantagem do rival é irreversível. Mais do que um gesto de "fair play" ou "gentileza", trata-se de reconhecimento às instituições de Estado e à lisura do processo eleitoral. Nos Estados Unidos, esse gesto é não apenas esperado, mas ocorre de forma muito natural e rápida.
Na eleição de 2008, eu acompanhava a apuração ao lado de milhões de pessoas no Grant Park, de Chicago. Um a um, os Estados iam fechando suas apurações. Tradicionais redutos republicanos caíam para o lado democrata. Anunciado Barack Obama como vencedor pelas projeções das emissoras de TV, em menos de 15 minutos, em uma sucessão muito rápida de fatos, um palco no Arizona surgiu na tela. Nele, estava o candidato derrotado John McCain.
_ É uma eleição histórica, e reconheço o significado especial que ela tem para os afro-americanos e para o orgulho todo especial que deve ser deles nesta noite - disse o candidato republicano.
O reconhecimento da derrota costuma ser a senha esperada pelo vencedor para falar perante a nação. Naquele dia, a carreata com Obama surgiu no Grant Park 10 minutos depois. Nas duas outras eleições seguintes que acompanhei como enviado especial, ocorreu o mesmo - com Mitt Romney e Hillary Clinton jogando a toalha antes do final da apuração.
A eleição de 2000 foi exceção. Os votos da Flórida foram disputados no tribunal do Estado e na Suprema Corte, deixando os EUA e o mundo no vácuo por semanas.
Há vários indícios de que, se perder, Donald Trump não aceitará o resultado e usará algumas das manobras possíveis tumultuar a entrega de poder. A menos que Joe Biden ganhe de lavada - em especial nos Estados onde a disputa promete ser mais aguerrida, como Flórida, Ohio e Pensilvânia -, o presidente deve levar a eleição para a Justiça, alegando fraude - como ele já vem fazendo em relação ao voto antecipado pelo correio. A coluna separou alguns cenários possíveis caso Trump perca e decida não aceitar a derrota.
1 Questionar os votos pelo correio
É o método mais provável que Trump usará para não aceitar o resultado, dadas as declarações que tem dado. Cerca de 90 milhões de pessoas já votaram de forma antecipada - dois terços por correio. Advogados republicanos devem questionar endereços, assinaturas mal feitas, erros em envelopes ou nas postagens. Trump pode se considerar vitorioso antes mesmo do final da contagem de votos, desconsiderando, por exemplo, cédulas que chegarão pelo correio após a terça-feira (o voto antecipado, tudo indica, é em massa dos democratas). O prazo para aceitar o recebimento dos votos varia para cada Estado. Alguns aceitam até o dia 12 de novembro, por exemplo (caso da Carolina do Norte). Outros um pouco antes, mesmo assim depois do dia 3. Nas eleições passadas, menos de 1% dos votos por correio foram rejeitados.
2 Exigir recontagem
Foi o que ocorreu em 2000, na Flórida. George W. Bush havia ganho no Estado por uma diferença de 1,5 mil votos populares. A campanha de Al Gore exigiu recontagem. O processo automático apontou 327 votos de vantagem para Bush. Na Justiça local, foi decidida a recontagem manual, quando foram descobertas várias irregularidades - os famosos votos manuais, em que o eleitor precisava perfurar a cédula, um método arcaico mas em uso até então lá. Al Gore recorreu à Suprema Corte, que decidiu pelo fim das contagens e recontagens na Flórida, fazendo valer a vitória de Bush. O republicano foi eleito por apenas 537 votos populares de diferença. Pouco, mas o suficiente para dar a ele todos os 25 delegados do Estado no colégio eleitoral (no sistema "too close to call"), que desequilibraram a balança no órgão que realmente decide. No colégio eleitoral, Bush ganhou por cinco delegados - 271 contra 266.
Na disputa atual, a Suprema Corte tem maioria consolidada de juízes conservadores - a nomeação de Amy Coney Barrett em substituição a Ruth Bader Ginsburg (progressista) aumentou a vantagem. Seis das nove cadeiras estão nas mãos de magistrados conservadores. Não significa que votarão pelos republicanos, mas é bem provável que o façam.
Levar a eleição para a Justiça pode servir para Trump ganhar tempo. Até 8 de dezembro, cada Estado precisa indicar os delegados com base no resultado das urnas. Onde os republicanos têm maioria nos congressos locais, os votos certamente iriam para Trump (o que pode ocorrer na Pensilvânia, Carolina do Norte, Michigan e Wisconsin). Só que o governador também pode fazer essas indicações. Nesses quatro Estados, os governadores são democratas. Nesse caso, segundo a lei, o Congresso federal debate e vota separadamente qual indicação vale - se dos congressos locais ou dos governadores.
A decisão aprovada pela maioria define o vencedor - lembrando que democratas têm maioria na Câmara, e e republicanos têm maioria, no Senado. Em 2000,
3 Trump se recusa a deixar a Casa Branca
É uma atitude extrema. A posse (chamada de inauguration), ocorre sempre no dia 20 de janeiro. Se nesse dia, o presidente não deixar a residência e sede do poder americano, o eleito pode convidá-lo a se retirar. O serviço secreto, responsável pela segurança dos chefes de Estado e do presidente eleito, se encarregarão de escoltá-lo. Como eu comentei, é uma atitude extrema, que provocará fissuras na democracia americana e turbulência na economia mundial.
4 Violência nas ruas
Em algumas cidades americanas nesta segunda-feira (2), como Washington, empresas instalaram tapumes em suas fachadas, temendo protestos violentos de manifestantes em reação ao resultado das urnas. Nas redes sociais, Trump tem convocado apoiadores para "vigiarem" os locais de votação. Essas pessoas são chamadas de Army for Trump (Exército para Trump). A rede de lojas Walmart retirou armas e munições de suas estantes. Grupos radicais de extrema direita comparecendo armados às urnas - algo legal em alguns Estados - para intimidar eleitores. Ou esses grupos, mesmo à revelia de Trump e do Partido Republicano, podem não aceitar o resultado e provocar distúrbios. Geórgia e Nevada são os Estados mais problemáticos segundo pesquisadores. Michigan, Pensilvânia, Wisconsin, Arizona e Virgínia em segundo lugar. O grupo mais perigoso é o Proud Boys, que Trump se recusou a condenar no primeiro debate com Biden. Oath Keepers também preocupam analistas.





