
O Equador está mergulhado em uma crise política que levou o presidente Lenín Moreno a decretar a mudança da sede do Executivo da capital, Quito, para Guaiaquil. Liderados por grupos indígenas, os protestos pedem a revogação do decreto que retirou os subsídios que regulavam o preço dos combustíveis. Com isso, os equatorianos foram dormir na quarta-feira pagando US$ 0,49 (R$ 2) por litro da gasolina extra (a mais usada) e acordaram com um preço de US$ 0,63/litro (US$ 2,58) nas bombas.
O jornalista Santiago Neumane, do jornal El Universo, conversou nesta sexta-feira (11) com a coluna direto de Guaiaquil sobre a tensão no país. Leia os principais trechos.
Como está a situação agora?
Segue tensa. Apesar de haver normalidade em algumas cidades da costa, nas serras do centro e do sul do país são locais onde há agora mais conflitos. Os indígenas chegaram à capital, Quito. Eles continuam com a paralisação. Indígenas da Amazônia se uniram aos protestos, estão chegando à capital para se juntarem. Os indígenas do Sul estão fazendo marchas pelas cidades.
Por que os indígenas estão liderando essas manifestações? Como eles são impactados pelo corte de subsídios dos combustíveis?
O governo decretou a eliminação dos subsídios para dois tipos de gasolina, o diesel e a gasolina extra, que são combustíveis com octanagem menor, que são consumidos pela maioria da população. Inclusive há veículos que era muito mais econômico usar o diesel, US$ 0,90 (R$ 3,68) o litro. Eles (os indígenas) utilizam veículos para transporte de seus produtos. A maioria dos transportadores também utiliza usa esse tipo de combustível. O fato de o governo ter retirado subsídios deixa liberado o preço para que varie de acordo com níveis internacionais.

Os indígenas são um grupo forte, já derrubaram alguns presidentes na história do Equador. Que poder realmente têm?
É um grupo forte, estão organizados em várias confederações, a maior é a Confederação de Nacionalidades Indígenas de Equador. Mas há outras, comunidades indígenas do Norte, do Sul, algumas evangélicas. Toda comunidade está envolvida com esse assunto, rejeitam a eliminação dos subsídios porque veem que vai subir também o preço (dos produtos). Quando tiverem de comprar, também serão afetados.
Como você é afetado, pessoalmente, pela elevação dos preços?
Afeta a todos. Não uso esse tipo de gasolina, uso uma gasolina super, que o presidente já retirou o subsídio meses atrás. No Equador, havia 40 anos se tinha gasolina subsidiada. Somos um país que produz petróleo, que exporta, mas também tínhamos combustível subsidiado. A medida afeta porque produz uma escalada de preços em tudo, na comida, no transporte. O governo decretou aumento de US$ 0,10 (R$ 0,40) no transporte público.

Quanto está a gasolina super, que você usa?
Agora, está custando US$ 2,90 (R$ 11,8), o preço flutua porque, como está a nível internacional, o varia. No mês passado, estava custando mais de US$ 3 o litro (R$ 12,27), agora está menos. Uso carro, mas, quando sobe o preço, opta-se por transporte público ou bicicleta.
Você acredita que o ex-presidente Rafael Correa está por trás dos protestos, tentando desestabilizar o governo de Lenín Moreno?
Ele está ativamente defendendo eleições antecipadas. Desde que começou o problema, ele tem insistido que o país está um caos, que já é hora de mudança de governo, que se deve antecipar as eleições e que ele se apresentaria como candidato. Além disso, há pessoas alinhadas a Correa, que foram parte de seu governo, que há meses convocam o povo a sair às ruas para se rebelar. Isso faz com que o governo pense claramente que Correa está por trás disso. Se o país está em crise, o que um estadista deve dizer é: "Por favor, seguimos, busquemos uma solução de diálogo". Não que defenda a queda do governo. Ele tem proclamado que deve haver uma mudança de governo.
Correa insufla os protestos, põe fogo na questão?
Exato, põe fogo. É isso que faz com que alguns pensem que ele está por trás disso.
A mudança do governo de Quito para Guaiaquil deve-se ao fato de que aí está mais seguro?
Está mais calmo, e as pessoas aqui reagiram pouco à paralisação. Mas, se a situação está tensa na capital, obviamente afeta todo o país. Se há vias fechadas, não chegam comida, medicamentos. Em Guaiaquil, há focos identificados de criminalidade comum, pessoas que se aproveitam para roubar. O presidente levou isso em consideração (o fato de Guaiaquil estar mais calma do que Quito) para mudar a sede de governo. O presidente despacha daqui, mas a capital segue sendo Quito.
Você acredita que um golpe de Estado é possível?
As forças armadas e a polícia deram seu respaldo ao presidente Moreno e à ordem constituída. Agora, o presidente da Assembleia, César Litardo, deixou claro que não há opção de sucessão presidencial. Um golpe de Estado ocorre quando há cabeças visíveis buscando derrubar o presidente. Não se viu isso. As forças armadas têm reiterado respaldo ao presidente. As únicas cabeças visíveis com relação a esse mal-estar (o corte de subsídios) são os dirigentes indígenas. Não houve um líder político que tenha saído a público exigir que Moreno caia.

