
Em 178 escolas públicas do Espírito Santo, o desenho era este: o aluno terminava a redação e a enviava pela plataforma. Pouco depois, recebia uma primeira devolutiva sobre ortografia, coesão e estrutura. Quando a professora abria o texto, a conversa podia começar de outro ponto: o argumento frouxo do segundo parágrafo, a conclusão que não conclui.
O experimento envolveu 19 mil estudantes. Foram 110 escolas sorteadas para receber a plataforma, enquanto outras 68 serviram como grupo de comparação. Os alunos escreveram cerca de 30% mais e discutiram individualmente com seus professores cerca de um terço mais redações. A máquina fez a primeira leitura. Sobrou mais tempo para a conversa que só a professora poderia ter.
No sábado, defendi com as melhores evidências que encontrei a tese de que estamos virando zumbis. Hoje, no segundo ato do experimento, defendo o contrário com o mesmo rigor. Antes das provas, um aviso: parte da pesquisa deste arco foi feita com inteligências artificiais. Mas cada número desta coluna passou por conferência humana: a minha. Quem leu o texto de sábado sabe por quê.
A ampliação também nasce de uma sequência de decisões. Quando elas acertam, a IA não melhora apenas o resultado final. Ela muda o caminho: ajuda as pessoas a aprender mais, acelera a experiência e devolve tempo para aquilo que ainda depende de presença e julgamento humano.
Comece de novo pela memória. Num experimento divulgado neste mês nos Estados Unidos, ainda sem revisão por pares, universitários foram sorteados para estudar um tema técnico com ou sem apoio de IA. Os que usaram a ferramenta aprenderam mais. Uma semana depois, veio o detalhe que interessa: num teste sem acesso a ferramenta alguma, a vantagem continuava lá.
Suba do estudante para o trabalhador. Um estudo publicado no Quarterly Journal of Economics, uma das revistas mais exigentes da economia, acompanhou 5.172 atendentes de suporte. Com um assistente de IA, eles passaram a resolver 15% mais problemas por hora. Entre os menos experientes, o ganho chegou perto de 30%. Atendentes com dois meses de casa alcançaram o desempenho de colegas que trabalhavam havia mais de seis meses sem a ferramenta.
Havia ainda um sinal importante. Nas raras horas em que o sistema caía, quem havia trabalhado com a IA continuava mais rápido do que antes de conhecê-la. Até aí, nenhuma novidade para quem já ouviu um “o sistema caiu”. A surpresa é que, desta vez, o conhecimento não caiu junto.
Agora, suba do indivíduo para a instituição e lembre-se da coluna de sábado. Lá, uma meta mal desenhada levava servidores a negar benefícios em ritmo de máquina. O Espírito Santo conta a história inversa. O Estado sorteou escolas antes de expandir, mediu os resultados e abriu mais espaço para que professores discutissem os textos individualmente com os alunos. A nota de redação subiu o equivalente a 17 pontos no Enem, e a distância entre escolas públicas e particulares encolheu cerca de 9%. A tecnologia rendeu mais justamente para quem tinha menos.
O padrão reaparece onde os recursos são ainda mais escassos. Na Nigéria, 800 alunos de escolas públicas passaram seis semanas em aulas de reforço nas quais professores conduziam o uso de uma IA gratuita. O ganho equivaleu, na conversão dos próprios pesquisadores, a algo entre um ano e meio e dois anos de progresso típico. Na comparação feita por eles, o programa superou 80% das intervenções educacionais rigorosamente avaliadas.
Os autores fazem uma ressalva importante: não é possível separar o efeito do chatbot do restante do pacote, que incluía atividades estruturadas, alinhamento com o currículo, aprendizagem entre colegas e professores conduzindo cada sessão.
É exatamente por isso que o dado importa.
No sábado, havia um juiz que assinou sem ler, profissionais arrastados para o erro e uma instituição premiando a negativa mais rápida. Hoje, encontramos estudantes que mantiveram o que aprenderam, trabalhadores que aceleraram a própria curva e uma rede pública que abriu mais espaço para o professor.
A pergunta de sábado estava incompleta. A IA já está produzindo zumbis e humanos ampliados ao mesmo tempo.
Na coluna da próxima quinta, vou atrás do que separa um caminho do outro.

