
Naquela casa, comida congelada é exceção, algo raro e indesejado. Na casa ao lado, onde falta tempo e sobra cansaço, o ultraprocessado está presente todo dia, porque é o mais rápido e o mais barato. Tem gosto de miojo salvando a noite, bisnaguinha com requeijão e pacote de biscoito aberto em cima da mesa. Ninguém vive disso por preguiça, mas pelo que sobra de tempo, de dinheiro e energia no fim de um dia longo de trabalho. E, muitas vezes, também por falta de informação. A comida menos nutritiva não se espalha por acaso; ela segue a linha da renda. O sociólogo José Ruy Lozano, no Le Monde Diplomatique, usou essa imagem para descrever o que a inteligência artificial começa a fazer nas escolas brasileiras: virou, nas palavras dele, uma nutrição cognitiva ultraprocessada, pronta, saborosa, barata e pobre em valor formativo. E, como todo ultraprocessado, não chega igual a todas as mesas.
É disso que trata esta coluna, a última de quatro sobre metacognição, a capacidade de monitorar o próprio pensamento. Nas três anteriores, falei da ilusão de saber que a máquina produz, de como localizar onde a gente empaca, e de quem sustenta o pensamento da criança quando não há adulto por perto. Falta a pergunta mais dura: quanto disso depende da renda familiar?
Os números desenham a divisão. Segundo a TIC Educação, do Cetic.br, sete em cada dez estudantes do ensino médio usam inteligência artificial para a tarefa da escola, mas só um terço recebeu orientação sobre como utilizá-la da melhor forma. Os outros aprenderam sozinhos, e sozinho o caminho que se aprende é o mais curto: pedir a resposta pronta. Em um lado dessa divisão, o estudante tem computador e, cada vez mais, um professor formado para transformar a máquina em treino de raciocínio. No outro, tem um celular velho e ninguém por perto para dizer que copiar a resposta e entender o que ela significa são coisas bem diferentes.
Junte as duas pontas e aparece a desigualdade mais relevante da nova era. Não é mais só quem tem acesso à máquina e quem não tem. Quase todos já têm, no bolso, algum tipo de inteligência artificial. A diferença agora é quem tem, ao lado dela, alguém que ensina a questionar, pensar e verificar, e quem tem só a máquina. Numa casa, a IA entra como ingrediente na mão de quem já sabe cozinhar, para ampliar o que a pessoa já faz. Na outra, como o pacote pronto na despensa vazia, para preencher depressa o lugar do que faltava.
O resultado não aparece de imediato, e isso é bem perigoso. Os dois jovens entregam a tarefa feita, os dois recebem uma boa nota e seguem adiante. Antes da inteligência artificial, muitas vezes o não saber deixava rastros: a página em branco, o texto capenga, a resposta incompleta, o tropeço visível que avisava o que não havia sido aprendido. A máquina apagou parte desse alarme. Agora, a lacuna pode vir embrulhada em um texto impecável, com começo, meio, fim e aparência de domínio. A resposta pronta engana a mente como o ultraprocessado engana o corpo: sacia agora, mas cobra depois. Quando a conta chega, já passou da hora de corrigir a dieta.
É aqui que a metacognição deixa de ser assunto de escola e vira questão de país. A única defesa contra uma desigualdade que quase não aparece é aprender a enxergá-la. O pai que aprende a distinguir entendimento de resposta bonita começa a reconhecer essa diferença no filho. E o cidadão que entende isso deixa de aceitar como inclusão a promessa de que basta distribuir tablets ou liberar a inteligência artificial. Dar a máquina com IA sem garantir a mediação de um professor bem formado não é letramento em IA. É acesso sem aprendizagem.
Não dá para resolver isso sozinho, na sua cozinha. Mas dá para parar de confundir acesso com aprendizado, e essa já é uma forma de metacognição, a que serve tanto para olhar o próprio filho quanto para cobrar a escola de todos. A criança que só tem a máquina não precisa de menos tecnologia. Precisa de alguém, em casa ou na escola, que faça com ela as perguntas que a máquina não faz. A próxima desigualdade brasileira não vai separar quem tem inteligência artificial de quem não tem, porque logo todos terão. Vai separar quem aprendeu a pensar com ela de quem, diante dela, desaprendeu a pensar. Impedir que essa diferença cresça não pode ser tarefa de cada família sozinha.
Fecho aqui o primeiro arco sobre metacognição. Mas ele deixa uma pergunta maior do que quando começou: se saber monitorar o próprio pensamento virou o que separa quem amplia de quem atrofia, como a gente treina isso, ainda por cima, usando a mesma máquina que ameaça tirar isso de nós?





