
No início de dezembro, Ella Cook entrou no gabinete do professor Roberto Serrano, na Brown University, para pedir que ele fosse seu orientador e ele aceitou na hora. Dias depois, um ataque a tiros tirou a vida de duas alunas da universidade. Ella era uma delas.
Serrano ensina economia na Brown há 34 anos e nunca tinha optado por outra opção que não fosse a prova presencial. Diante de uma turma em luto, decidiu que o exame parcial de março seria feito em casa, com consulta livre. Queria poupar aqueles jovens da tensão de uma sala de prova naquele semestre. Foi a primeira flexibilização em três décadas, e nasceu de um gesto de cuidado.
A disciplina, que costumava reunir 30 alunos, recebeu 86. As provas feitas em casa voltaram com números que ele nunca tinha visto: média 96 em 100, com 40 notas máximas, numa disciplina cuja média costumava oscilar entre 65 e 80. E a prova estava mais difícil que o habitual, porque ele previa que os alunos teriam livros e anotações à mão.
Serrano anunciou, então, o teste do teste: a prova final seria presencial, manuscrita e sem consulta. Se os resultados destoassem demais, o exame de casa perderia peso na nota. 27 alunos abandonaram a disciplina ou faltaram à final. 22 deles tinham tirado 100. Entre os que compareceram, a média foi 48,6, a mais baixa que ele já registrou. Uma questão repetida da prova de casa, em que a turma tinha ido muito bem, teve média de 10% no papel.
É tentador rotular o episódio como escândalo de cola, resolvível com fiscal e detector. Mas seria uma leitura míope. Uma pesquisa britânica ouviu mais de mil universitários em 2025: 92% usam inteligência artificial nos estudos, 88% em trabalhos avaliados. A Brown virou notícia porque um professor resolveu medir a distância entre a nota e o aprendizado. Em muitas outras salas, essa distância vai crescendo sem deixar rastro.
Na última quinta-feira, escrevi aqui sobre uma ilusão de saber que aparece por dentro, no aluno que sai da aula convencido de que aprendeu. Na Brown, a ilusão aparece por fora e certificada em ata: o 96 mediu o alcance da máquina; o 48, o que tinha ficado nas pessoas.
Um detalhe que o noticiário trata como rodapé me parece ser o mais importante. A fraude respondeu a um gesto de confiança. Avaliação é um contrato: o professor oferece condições dignas de mostrar o que se sabe e o aluno, em tese, mostra. Sobre esse contrato silencioso se apoia cada diploma pendurado em parede de consultório, de escritório e de sala de aula. A inteligência artificial barateou a quebra desse contrato até o ponto em que ele precisa ser renegociado por inteiro. O policiamento cuida da parte menor: diz quem colou, e nada sobre o que a nota deveria voltar a significar.
Há algo que o caso revela quase sem querer: a verdade sobre o que cada um sabia só apareceu quando houve sala, papel e presença.
Depois da prova final, Serrano reuniu a turma que restou e fez uma única pergunta. Era dirigida aos presentes, mas pesava mais nas cadeiras vazias, nas 22 notas 100 que não voltaram para a prova: por que vocês estão aqui?


