
Em Montes Claros, no norte de Minas Gerais, um juiz federal assinou uma sentença negando indenização a uma servidora pública. A fundamentação citava oito processos do Superior Tribunal de Justiça. Mas, um detalhe: nenhum deles existia. Quem percebeu foi o advogado da parte derrotada, que acionou a corregedoria. Chamado a explicar, o juiz falou em mero equívoco, em erro material e na sobrecarga que pesa sobre os ombros dos magistrados. Disse que a minuta havia passado por um servidor. O servidor contou de onde vinham os precedentes: de uma pesquisa feita no ChatGPT. Na cadeia inteira, entre a pergunta digitada e a assinatura no fim da página, ninguém se deu o trabalho de conferir.
Este texto abre um experimento em três atos. Aqui, reúno as melhores evidências de que sim, estamos virando zumbis. Na coluna da próxima terça-feira (21), defendo exatamente o contrário com o mesmo rigor. Na coluna da quinta-feira (23), escrevo o terceiro ato, sobre o que empurra cada um de nós para um lado ou para o outro.
O zumbi do cinema nasce de uma mordida. O nosso nasce de uma sequência de decisões perfeitamente razoáveis. Cada uma delas economiza minutos, resolve problemas e parece pequena demais para ter consequências sérias. A máquina não precisa nos obrigar a nada. Basta que, diante de cada nova tarefa, conferir o resultado nos pareça um pouco menos necessário do que parecia ontem. É o velho “manda assim mesmo”, agora com uma gramática impecável.
Comece pela memória. Num experimento brasileiro publicado no fim de 2025, o pesquisador André Barcaui dividiu 120 universitários em dois grupos. Metade estudou um tema novo com apoio livre do ChatGPT; a outra metade usou métodos tradicionais. 45 dias depois, os 85 que seguiram no estudo fizeram um teste-surpresa. O grupo da ferramenta acertou 57,5% das questões. O outro, 68,5%. É um estudo só, feito numa única universidade. Sozinho, prova pouco. Mas ele não está sozinho.
Suba da memória para o julgamento. Uma pesquisa publicada no JAMA, uma das principais revistas médicas do mundo, apresentou a 457 profissionais de hospitais americanos casos simulados de pacientes com dificuldade respiratória grave. Em parte dos casos, havia o palpite de uma inteligência artificial; em outra parte, os profissionais decidiam por conta própria. Com o modelo padrão, a taxa de acerto subia. Mas quando o modelo foi programado para errar sempre do mesmo jeito, os profissionais passavam a errar junto, e o acerto caía 11,3 pontos percentuais. Nem as explicações fornecidas pela própria máquina, o recurso que em tese deveria proteger o profissional, conseguiram neutralizar o efeito. Na Espanha, pesquisadoras da Universidade de Deusto encontraram algo ainda mais incômodo numa tarefa simulada de diagnóstico: depois de trabalhar com uma IA enviesada, as pessoas continuavam repetindo os erros dela quando já estavam respondendo sozinhas.
Agora suba do indivíduo para a instituição. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União examinou pedidos de benefício negados pelo INSS e encontrou 13,2% de indeferimentos indevidos nas análises feitas por servidores em 2023. Nos indeferimentos automáticos examinados entre janeiro e maio de 2024, a taxa de erro foi menor. O relator, ministro Aroldo Cedraz, apontou a raiz do problema: medir a produtividade pelo número de processos analisados pode empurrar o servidor para a solução mais rápida, que é indeferir. Pessoas de carne e osso negando o sustento de outras pessoas de carne e osso, em ritmo de máquina, porque a meta premia velocidade. A zumbificação não precisa de IA. Precisa de uma meta mal desenhada. A IA apenas torna mais fácil obedecer sem pensar.
O juiz de Montes Claros serve de espelho, e espelho não escolhe quem olha. Quantas coisas você assinou esta semana sem conferir? O e-mail que a ferramenta escreveu, o resumo que ela entregou, a resposta que ela sugeriu e você tocou em enviar. A sentença dele tinha o número de processo e virou notícia. As nossas entregas diárias quase nunca chegam à corregedoria.
Antes de enviar qualquer coisa produzida com IA, tente responder a uma só pergunta: o que, exatamente, você conferiu? Se a resposta for "nada", este texto é sobre você.
O zumbi do cinema não sabe que virou. Talvez esse seja o detalhe mais realista. Na próxima terça-feira (21), defendo que estamos aprendendo a não virar.


