
A humanidade construiu antes de escrever. Empilhou pedra sobre pedra para deixar o frio do lado de fora, ergueu templos para conversar com o que não via, muralhas para dividir e defender. Desde então, quase tudo o que uma civilização acredita ou teme acaba ganhando forma, peso e endereço. E a matéria fica: um prédio continua produzindo sombra e cansando joelhos muito depois de morrerem todos os que o encomendaram. Por vezes, uma casa concentra séculos de histórias.
À beira do lago Bled, na Eslovênia, a cerca de 50 metros da água, a Vila Epos faz isso desde 1909. Construída pelo arquiteto tcheco Josef Hronek, ganhou em 1936 um jardim de inverno envidraçado desenhado por Jože Plečnik, o mais célebre arquiteto esloveno. Atravessou duas guerras mundiais, sucessivos regimes e a dissolução da Iugoslávia sem sair do lugar, e hoje é protegida como patrimônio cultural. A divulgação internacional do novo empreendimento, porém, costuma atribuir a casa inteira a Plečnik. Os registros locais contam uma história menos simples: Hronek projetou a vila; Plečnik chegou quase 30 anos depois para reformá-la. Antes mesmo de a inteligência artificial entrar em cena, a versão mais sedutora já circulava mais depressa que a mais exata.
Em março de 2025, a inteligência artificial bateu à porta. O arquiteto Tim Fu, que trabalhou na equipe de pesquisa computacional da Zaha Hadid Architects, apresentou o projeto de seis novas vilas no mesmo terreno. Segundo o estúdio, a IA participou de quase todo o processo: a análise das regras de ocupação, a pesquisa sobre a arquitetura tradicional eslovena, o desenho do conjunto, os estudos de eficiência energética e a escolha de materiais. Nada foi construído ainda, e o rótulo de primeiro projeto conduzido por IA em todas as etapas é do próprio escritório. Mesmo assim, algo importante aconteceu ali: a máquina deixou de apenas ilustrar edifícios e começou a participar das decisões que os farão existir.
É essa fronteira que abre uma nova conversa nesta coluna, sobre a arquitetura e as profissões do projeto na era da IA. Devo a série a leitores arquitetos, urbanistas e designers de interiores que a pediram nas redes, com a generosidade de quem confia um assunto que ama. Espero estar à altura do pedido.
O que está em jogo não é pequeno. A arquitetura tem como matéria-prima o mundo físico que compartilhamos uns com os outros. Um parágrafo ruim se apaga; uma janela mal posicionada esquenta ou esfria uma sala por 30 anos. Quando a IA entra numa prática assim, entra na cadeia de decisões que determina onde o sol bate, como se sobe a escada e como a cidade será vista e vivida pelas próximas décadas.
E ela já entrou, de forma desigual e atrapalhada, como toda mudança verdadeira. No Reino Unido, 59% dos escritórios diziam usar IA em 2025, segundo o instituto dos arquitetos britânicos, mas apenas 15% tinham alguma política formal sobre o assunto. De novo, a ferramenta chega antes das regras. O puxadinho, pelo visto, ganhou o mundo. Nos escritórios mais avançados, ela gera alternativas de projeto, testa sol e vento no terreno, escreve memoriais, conversa com os modelos digitais dos edifícios. E quase tudo o que ela propõe é descartado. O trabalho que importa começa na decisão sobre o que merece continuar.
É nesse intervalo que se desenha a figura do arquiteto ampliado. Imagine-o diante de cem fachadas geradas numa tarde, passando por elas como quem folheia um caderno alheio de croquis. Mais do que escolher a que lhe agrada, seu trabalho é reconhecer qual delas responde ao terreno, ao orçamento e à vida que o cliente ainda não conseguiu explicar. Ele usa a velocidade da máquina para abrir o campo de possibilidades e preserva a lentidão necessária para escutar, compreender e escolher. A inteligência artificial encurtou drasticamente o caminho entre imaginar uma casa e vê-la tomar forma. Compreender a vida que vai acontecer dentro dela continua tão difícil quanto sempre foi.
A Vila Epos atravessou o século sem pressa. As primeiras formas de suas novas vizinhas surgiram na velocidade das máquinas. Na diferença das velocidades, alguém ainda precisa responder pela pergunta mais antiga da profissão, aquela que nenhum modelo de IA poderá responder sozinho: de tudo o que agora podemos imaginar, o que merece durar cem anos?




