
A mão do endoscopista sabe coisas que ele não consegue explicar. Ela conduz o aparelho pela curva do intestino com uma pressão que nenhum livro ensinou, desacelera sem ordem consciente diante de uma dobra da mucosa, volta atrás porque algo ali não pareceu bem. É repertório acumulado em milhares de exames, guardado no corpo, pronto na hora exata em que a tela mostra apenas mucosa cor-de-rosa passando depressa.
Agora, imagine uma inteligência artificial que contorna na mesma tela, em tempo real, tudo o que pode ser pólipo. Ela funciona. Ensaios clínicos mostram que a IA aumenta a detecção de adenomas, as lesões que podem virar câncer de intestino. Mais pólipos encontrados hoje significa menos câncer amanhã. O paciente ganha, e isso não está em disputa.
Foi, então, que os pesquisadores encontraram uma outra coisa, sem procurar. Em quatro centros de endoscopia da Polônia, dezenove médicos experientes, cada um com mais de duas mil colonoscopias na vida, adotaram a IA em suas rotinas. Três meses depois, quando examinavam sem a máquina, passaram a encontrar menos pólipos: a taxa de detecção nesses exames caiu de 28,4 para 22,4 por cento. De cada cinco exames em que eles antes achavam alguma lesão, um passou a sair limpo. O estudo, publicado no Lancet Gastroenterology & Hepatology em 2025, é observacional, mostra uma associação e não uma causa provada. Mas é a primeira evidência de mundo real de um tipo de perícia que definha quando deixa de ser convocada.
Ninguém desaprende de uma vez. Certas habilidades perdem o treino quando deixam de ser exigidas todo dia. A mão que sempre desacelerou na dobra suspeita não precisa mais desacelerar sozinha, porque o contorno colorido chega antes. Meses depois, quando o contorno some, a mão já não é a mesma. E o que aconteceu com os poloneses acontece com qualquer um de nós quando a máquina passa a fazer bem a parte que nos formava.
Nas últimas semanas, escrevi aqui sobre a IA que lê a retina de quem nunca viu um oftalmologista e sobre a que escuta a consulta e devolve ao médico o tempo que o teclado tomava. As duas boas notícias desembocam na mesma pergunta: se a máquina vê e escreve, quem confere?
Porque a conta só fecha se alguém, do lado de cá, ainda souber ver. O paciente da colonoscopia com IA sai ganhando hoje. A dúvida é sobre o endoscopista que, daqui a dez anos, terá formado a mão inteira dentro de um sistema que aponta o caminho antes. Ele será excelente com a máquina. Ninguém sabe o que ele será sem ela, no dia em que ela sair do ar ou errar com a mesma confiança com que costuma acertar.
E a pergunta deixou de ser filosófica. O escriba que hoje transcreve a consulta já ganha versões que sugerem conduta e rascunham receitas. Sistemas que não dormem analisam sinais vitais. Cada camada nova transfere para a máquina mais um pedaço do que fazia um médico ser médico, e exige, do outro lado, um humano capaz de dizer não. Só que a capacidade de dizer não se treina exercendo, e não assistindo. Compreende a contradição?
O Conselho Federal de Medicina já se preparou para essa fronteira. A resolução aprovada em fevereiro de 2026 torna obrigatória a supervisão humana, mantém a decisão final com o médico, veda punir quem recusar a orientação do algoritmo e proíbe que instituições imponham metas subordinando a conduta clínica. É a proteção do juízo humano escrita em norma, e o Brasil chegou cedo nela. Mas norma não treina ninguém. Ela garante ao médico o direito de discordar da máquina. Não garante que exista, dentro dele, a competência que sustenta a discordância.
Decreto nenhum fabrica essa competência. Ela vem do exercício, e o exercício é justamente aquilo que a máquina, com toda a boa intenção do mundo, foi feita para poupar. A mão do endoscopista continua sabendo coisas que ele não sabe explicar. Resta saber quem, daqui a dez anos, ainda estará pedindo a ela que saiba.
Para trabalhar melhor com IA
Desta vez, não peça nada à máquina.
A pergunta de bolso é a seguinte: qual é a habilidade que você não pode se dar ao luxo de desaprender, e quando foi a última vez que a exercitou sem ajuda nenhuma?
E o exercício: uma vez por semana, pegue uma tarefa importante que você já entrega à IA. Faça sozinho primeiro. Escreva sua hipótese, seu rascunho, sua resposta, mesmo que saia cheio de problemas. Só então mostre à máquina e compare. O placar importa menos que a tendência: perceber se, desta vez, a distância entre as duas ficou maior do que da última.


