
Antes de escrever esta coluna, fiz o que muita gente já faz no trabalho e quase ninguém comenta: pedi ajuda a algumas inteligências artificiais. A várias delas. Eu queria ajuda para pensar melhor, e tive. Elas me deram boas ideias e frases que eu não teria criado sozinho. Também me deram um problema que demorei a notar. Quanto mais sugestões apareciam, mais eu precisava me perguntar o que ali ainda era meu e o que era só uma média elegante do pensamento das máquinas.
Digo isso sem culpa e sem orgulho. O que me interessa é o que aconteceu com a natureza do trabalho em si. Usar a IA mudou o lugar onde o pensamento precisa acontecer. Em vez de começar com uma página em branco, meu ponto de partida passou a ser uma página cheia. O esforço é de outro tipo, mas não é menor: separar o que realmente importa do que apenas parece importante, e o que é meu do que só está bem escrito.
Na coluna da última terça-feira, escrevi sobre a promessa de que a tecnologia nos devolveria tempo. A inteligência artificial desloca essa promessa para um lugar mais delicado: o próprio pensamento. Ela começa a economizar tempo quando ainda estamos tentando entender o problema, organizar as opções e decidir por onde começar.
Essa mudança está aparecendo na rotina de muita gente. Numa segunda de manhã, o relatório chega pronto, com resumo, cenários e uma recomendação em tom prudente. O e-mail difícil vem redigido, faltando só revisar. A apresentação tem as opções organizadas, e até a ordem em que aparecem sugere qual é a preferida. Quem assina continua sendo a mesma pessoa. Só que ela começa de um terreno que já foi organizado por outra inteligência.
Quase nunca faz isso de frente. Ela vem meio mineira, comendo pelas beiradas, quando o problema ainda está sendo formulado. Resume o que importa, descarta o que parece secundário, propõe a primeira versão e escolhe um tom. Quando a gente senta para decidir, a decisão parece ser nossa. O chão sob ela, não.
No lugar do descanso que a promessa sugeria, vem uma nova vigilância. Avaliar um texto que parece pronto cansa de um jeito diferente. Quando a gente escreve, erra e percebe o erro pelo caminho. Quando avalia, precisa desconfiar de algo que já chega com cara de certo, bem arrumado e fluente. Parte do trabalho passou a ser avaliar um resultado sem ter vivido o processo que permitiria julgá-lo melhor.
Aqui, o mecanismo da semana passada se repete, com mais profundidade. Antes, cada tecnologia subia a régua do produto: roupa lavada com mais frequência, comunicação mais rápida, mais tarefas concluídas. Agora, a régua que sobe é a do pensamento. Se a máquina já analisou os dados, uma análise superficial começa a parecer preguiça. Se ela compara cenários, resume documentos e sugere caminhos, pensar direito passa a significar revisar mais alternativas, testar mais hipóteses e justificar melhor cada escolha. O padrão do que conta como um trabalho bem feito sobe junto com a capacidade da ferramenta. Ninguém reuniu uma comissão para decidir isso. Simplesmente aconteceu. E quem não acompanha começa a parecer lento ou ultrapassado, mesmo quando está apenas tentando pensar com calma.
E aí a pergunta deixa de ser “quanto tempo a IA vai me economizar” e passa a ser outra, mais incômoda: que tipo de gente vamos formar quando as pessoas se acostumam a começar pelo meio, com o problema resumido, as opções filtradas e a primeira resposta bem escrita. Esse esforço inicial de enfrentar a confusão é o que constrói alguém capaz de pensar com autonomia. Quando ele se torna opcional cedo demais, o pensamento crítico pode nem chegar a se formar.
Eu ainda assino embaixo desta coluna. Pensei cada escolha e recusei boa parte do que as máquinas sugeriram. A versão final nasceu de um pente-fino que dá bastante trabalho. Mas saio dessa experiência com uma dúvida que não tinha alguns anos atrás. Não sobre mim, que aprendi a escrever em páginas em branco, mas sobre quem vai aprender a escrever recebendo o terreno pronto, e talvez nunca sinta o desconforto necessário de encarar uma página em branco.
Para pensar melhor
John Dewey — How We Think (1910). Um dos maiores nomes da educação escreveu, há mais de um século, a defesa do desconforto que dá título a esta coluna. Para Dewey, pensar de verdade nasce da perplexidade e da dúvida, e nunca acontece sozinho; é esforço, não combustão espontânea. Recomendamos porque ele descreve, muito antes da IA existir, exatamente o que está em jogo quando o problema já nos chega resumido e a primeira resposta já vem escrita: o trabalho de encarar a confusão é o que forma alguém capaz de julgar. Download gratuito e legal, em domínio público, no Project Gutenberg (em inglês; há edição brasileira, Como Pensamos, em catálogo).
Lee e colegas (Microsoft Research e Carnegie Mellon) — The Impact of Generative AI on Critical Thinking (2025). Pesquisadores foram perguntar a profissionais do conhecimento o que muda no pensamento de quem trabalha com IA generativa. Recomendamos como contraponto empírico ao relato pessoal desta coluna: onde aqui há uma experiência, ali há um estudo medindo o mesmo deslocamento, a confiança na máquina mexendo com quando e quanto o pensamento crítico aparece. PDF aberto e gratuito no site da Microsoft Research (em inglês).



