
Há alguns dias, pela manhã, entre a corrente do bom dia e os cards de sempre, recebi, no grupo da família, a notícia de que o Papa tinha compartilhado uma encíclica sobre inteligência artificial. Abri, vi que era comprida, e meus dedos caminharam automaticamente para pedir o resumo. A ironia demorou dois segundos para me alcançar. Eu estava a um toque de pedir à máquina que resumisse a carta do Papa que adverte contra deixar a máquina pensar no nosso lugar. Levei uns instantes até entender as camadas daquela cena.
Imprimi o documento e li tudo à moda antiga, fazendo anotações e gastando um tempo que a gente raramente gasta com a leitura de um único documento hoje em dia. São mais de duzentos parágrafos que passam por Agostinho, Platão, a torre de Babel, as armas nucleares e a escravidão. O nome, Magnifica Humanitas, vem da primeira linha, sobre a magnífica humanidade que Deus criou. Eu sinceramente não esperava ler nada de novo, mas acabei com uma frase que ficou na minha cabeça.
Ela está lá pelo meio, num trecho sobre a escola. O papa escreve que a facilidade de obter uma resposta pronta pode apagar o nosso desejo de fazer perguntas. Os dois medos mais comuns já conhecíamos bem: a máquina vai errar e nos atrapalhar; a máquina vai acertar e tomar nosso lugar. O papa apontou um terceiro, mais complexo. Quando a resposta vem rápida e de graça, a pergunta às vezes não chega a nascer.
Reparei numa coincidência da forma. Para falar contra a pressa de pensar, ele escreveu o texto mais difícil de ser lido com pressa que apareceu em muito tempo. Foi a profundidade do documento que me segurou do impulso de querer resumir.
Passei a ver o mesmo gesto em todo canto. A criança que pede o resultado em vez de trabalhar na operação matemática por dez minutos. O adulto que pede os pontos principais do relatório antes de deixar o relatório incomodá-lo. Nada disso é exatamente preguiça. Num mundo corrido e estressado, parece sensato. O problema é que, quando pulamos direto para a chegada, a gente perde o caminho e tudo nele que nos forma.
Dez anos antes da chegada do ChatGPT, vi o contrário numa escola pública na Rocinha, no Rio de Janeiro. Quando a escola deixava de premiar a resposta rápida e passava a premiar a boa pergunta, tudo mudava. O jovem que decorava para responder saía do centro. Aquele que insistia nos porquês assumia o protagonismo. Levava mais tempo, mas talvez essa seja a natureza de se educar.
O papa escolheu uma palavra para explicar a solução, mas essa palavra engana. Ele pede, no documento, um jejum de inteligência artificial. Muita gente interpretou como largar a tela e ficar longe do celular. Mas o jejum que ele propõe é mais profundo. É a recusa de ir direto para a resposta pronta. Dá para estar com o celular na mão e jejuar do mesmo jeito, desde que você lute com a dúvida antes de entregá-la.
E esse jejum cabe num gesto pequeno, repetível. Antes de pedir a resposta à máquina, escreva num papel a sua melhor resposta errada, a que você arrisca em dois minutos sem consultar nada. Errar assim, de propósito, é o exercício. O atrito de duvidar antes de entregar a dúvida é onde o pensamento começa. Depois, pergunte à máquina, e compare as duas. O próprio papa diz isso de um jeito seco: educar para usar a IA é também educar para saber quando não usá-la.
Voltei ao grupo da família no fim da tarde. Não mandei o resumo. Mandei a notícia inteira, com uma pergunta junto, no lugar da corrente de costume. Topam ficar um dia sem pedir a resposta pronta? Ainda não recebi respostas. Talvez ninguém responda, porque é fácil encaminhar um papa pedindo jejum e difícil jejuar.
Fiquei com a pergunta na cabeça, dessas que a máquina até responderia, mas não chegaria perto da verdade. Que perguntas eu já deixei de fazer, sem nem perceber?


