
Você não é uma inteligência artificial. Mas reparou que começou a dizer "crucial" mais frequentemente? Que sua chefe falou em "navegar por desafios" na reunião de quinta? Que usou "não apenas X, mas também Y" três vezes na última proposta que enviou? Ou que terminou um e-mail com "fico à disposição para esclarecer eventuais dúvidas", que há poucos anos você não usaria nem em concurso público?
Há algo invadindo o seu vocabulário sem pedir licença.
Pesquisadores do Instituto Max Planck, em Berlim, transcreveram cerca de 280 mil vídeos acadêmicos do YouTube e mais tarde ampliaram o estudo para 740 mil horas de podcasts e palestras. Foi o primeiro trabalho a medir o fenômeno na fala. Descobriram que, nos 18 meses seguintes ao lançamento do ChatGPT, palavras como "meticuloso", "domínio" e "hábil" cresceram até 51% na boca de gente que não estava lendo textos criados por IA. Estavam só conversando. Em português brasileiro, o fenômeno já dá sinais claros: "multifacetado", "estratégico", "em última análise" começaram a aparecer em apresentações e e-mails. Hiromu Yakura, autor principal do estudo, resumiu: estamos absorvendo, em nossa fala diária, o vocabulário das máquinas.
Nas últimas quatro colunas de sábado, falamos da nossa marca pessoal: como descobrir, identificar e perceber o estreitamento, e como alargar nosso repertório com a ajuda da própria IA. Eram colunas sobre como você se expressa profissionalmente. Hoje, a conversa fica mais íntima. As palavras que você usa no dia a dia não estão só descrevendo o que você pensa. Elas são a estrutura do seu pensamento, das suas emoções e da sua identidade. Quando o vocabulário muda, parte importante de quem você é muda junto.
E aí entra o achado mais desconfortável da pesquisa recente. Um estudo de 2025 acompanhou 100 pessoas usando ChatGPT por sete dias em tarefas criativas. A criatividade individual subiu, como esperado. Quando a IA foi retirada, no entanto, ela despencou: ninguém tinha aprendido a ser mais criativo. Tinham aprendido a fazer um bom prompt. Mas o detalhe que assusta de verdade veio nas semanas seguintes. Mesmo sem usar a ferramenta, o conteúdo que essas pessoas produziam continuava ficando cada vez mais parecido entre si. Os autores chamaram o fenômeno de cicatriz criativa. Uma marca que fica depois que a IA sai. Pesquisadores do MIT chegaram a algo parecido medindo atividade cerebral: quem escrevia ensaios com ChatGPT mostrava menor engajamento neural e dificuldade de lembrar, minutos depois, o que tinha acabado de "escrever". Quem não pensa sobre o que escreve, não tem o que lembrar.
Há, no entanto, uma boa notícia. Quando a palavra "delve" (em português, algo como 'aprofundar-se em') foi publicamente identificada como cacoete do ChatGPT, sua frequência caiu em papers acadêmicos no semestre seguinte. Quando entendemos o padrão, ele se desfez. Há séculos sabemos que nomear é o primeiro gesto de quem quer mudar alguma coisa. Perceber a palavra intrusa já é devolvê-la.
Proteger a sua marca pessoal não é deixar de usar IA. É manter pequenos gestos que ampliam a sua voz depois de cada uso. Reescrever pelo menos uma frase com palavras e expressões bem suas. Trocar três adjetivos por outros que pareçam com você. Notar o impulso a aceitar a primeira resposta da máquina e refletir. São minutos a mais por texto, todos os dias. E mesmo que custassem horas por semana, é 'crucial' proteger a sua voz do mexidão padronizado que as IAs estão deixando no ar.
A IA não vai parar de te oferecer "não apenas X, mas Y" em suas respostas. Mas você pode resistir, e fortalecer o seu jeito de falar, de se expressar, de escrever, com toda a diversidade de palavras, regionalismos e sotaques que fazem o português brasileiro ser tão rico. O seu vocabulário não é só o que você diz. É o jeito que você pensa, e é, até certo ponto, quem você é.
Auditoria de vocabulário com a própria IA
Abra uma conversa com a IA que você mais usa e cole o texto abaixo. Antes, prepare três textos seus dos últimos meses: e-mails importantes, mensagens profissionais, trechos de propostas ou apresentações. Quanto mais variados os contextos, melhor o diagnóstico.
"Vou te passar três textos meus escritos nos últimos meses. Quero que você funcione como um auditor de vocabulário. Identifique cinco palavras, expressões ou construções sintáticas nesses textos que sejam tipicamente associadas ao estilo dos chatbots de IA generativa (por exemplo: crucial, multifacetado, em última análise, navegar por, robusto, meticuloso, não apenas X mas também Y, ou similares). Para cada uma, me diga: 1) com que frequência ela aparece nos meus textos; 2) qual seria uma versão mais comum em português brasileiro, mais coloquial e mais cotidiana, que eu poderia usar no lugar; 3) em que tipo de contexto eu provavelmente comecei a usar isso recentemente. Seja honesta, mesmo que doa. Não me elogie. Não suavize."
Vou publicar uma segunda atividade, complementar, na minha página do Linkedin.



