
Roberto fez o exercício.
Abriu uma conversa com a inteligência artificial e descreveu, em uma mesma mensagem, o que andava consumindo. Os três sites de design, os mesmos podcasts dos colegas, a meia dúzia de newsletters profissionais, os designers que segue nas redes. Foi honesto e buscou não inflar a lista.
A resposta veio sem rodeios: Zonas fortes: design contemporâneo, ergonomia, sustentabilidade aplicada. Zonas estreitas: tudo dentro do mesmo eixo e das mesmas tendências, com pequenas variações de fonte. Zonas ausentes: artesanato tradicional brasileiro, design não europeu, manufatura pré-industrial, conversa fora da indústria criativa. Em duas linhas, a máquina mostrou claramente o que ele já desconfiava. O caderno do avô, ao lado, parecia rir baixinho.
No último sábado, vimos que o nosso repertório está ficando mais estreito a cada dia que passa. Hoje, vamos usar a própria IA para alargá-lo intencionalmente.
Repare que esse cavalo de pau é importante. A IA é normalmente treinada e usada para entregar o que é mais comum, mais previsível, mais padronizado. É o que ela faz bem e é o que a maioria quer dela. Mas nada impede que você peça o oposto. A mesma máquina que pode nivelar o seu olhar pode te levar para fora dele, se você souber pedir.
Roberto decidiu pedir à IA referências distantes daquilo que consumia, em três áreas que tinham aparecido como ausentes, e que cada sugestão viesse com uma frase explicando como aquilo poderia ampliar o seu olhar, suas competências e o impacto do seu trabalho.
Veio assim: Em artesanato amazônico, a cerâmica marajoara, com seus padrões geométricos complexos, em que ornamento e pensamento são a mesma coisa. Em design africano, o trabalho do moçambicano Gonçalo Mabunda, que constrói tronos com peças de armas desativadas da guerra civil do país. Em móveis japoneses dos anos 1950, Sori Yanagi e a cadeira borboleta, duas peças de compensado curvado que se encontram em arco, com encaixe que faz as vezes do ornamento.
Para cada referência, a IA deixou uma frase. Marajoara: o padrão como pensamento. Mabunda: o material guarda a história. Yanagi: o encaixe é o desenho.
Roberto começou pelo documentário sobre Mabunda no domingo, dia de descanso. Mas, no dia seguinte, levou para a reunião de pauta uma proposta que considerava, pela primeira vez, o histórico do material como parte do produto. O cliente ficou em silêncio por uns segundos e disse: nunca ninguém tinha me apresentado essa ideia.
Algumas semanas depois, Roberto fez o terceiro movimento. Voltou à IA com um problema real do trabalho, dessa vez já carregando o repertório novo. Disse: estou desenvolvendo uma linha de banquetas para uma rede de cafeterias. Considerando o que tenho consumido nas últimas semanas, Mabunda, marajoara, Yanagi, que ângulos novos posso trazer para esse projeto?
A resposta da IA foi diferente. Não eram sugestões genéricas de design. Eram ângulos que cruzavam o que o Roberto agora sabia com o problema concreto que tinha em mãos. A IA tinha deixado de ser uma vitrine de referências e virado parceira de pensamento e de criação.
Foi aí que ele decidiu registrar um aprendizado importante: A IA é a mesma para todo mundo. O que muda, de uma pessoa para outra, é o que vem de fora. Quem pede com o repertório médio recebe resposta média. Quem pede carregando referências únicas, recebe respostas únicas.
Roberto não virou outra pessoa. Ele continua designer de produto, usando IA todo dia, olhando os mesmos sites. Mas um ponteiro se mexeu. O caderno do avô começou a fazer mais sentido. E o caderno dele, o próprio, começou a ganhar um colorido diferente.
Num jantar de família, alguém tocou no assunto da cerâmica do Marajó. Roberto comentou alguma coisa sobre como aqueles desenhos antigos pareciam pensar o espaço, e o cunhado dentista, que ele sempre achou um tanto distante, virou para ele com curiosidade genuína: como é que tu sabe disso?
Era o repertório voltando a ser dele.
Para criar melhor com com IA
Roteiro de três passos para alargar o seu repertório cultural:
Passo 1. Faça o mapa do que você está consumindo
Se você fez o exercício do sábado passado, já tem o ponto de partida. Se não fez, faça antes do passo 2: descreva à IA o que consome numa semana típica e peça que ela aponte zonas fortes, zonas estreitas e zonas ausentes.
Passo 2. Peça referências distantes
Escolha duas ou três das zonas ausentes do seu mapa. Peça à IA cinco sugestões em cada uma – livros, documentários, uma pessoa para acompanhar, um lugar para pesquisar, um objeto para entender. Para cada sugestão, peça uma frase curta explicando como aquilo pode ampliar o seu olhar profissional. Comece a consumir uma ou duas indicações por semana.
Passo 3. Conecte com o seu trabalho
Quando já tiver consumido três ou quatro coisas novas, volte à IA com um problema real do seu trabalho. Diga: considerando o que estou consumindo agora, e cite as referências, que ângulos novos posso trazer para esse problema? Aqui a IA passa a fazer ponte entre o repertório novo e o trabalho de sempre.


