
No Japão, um dos objetos de desejo mais improváveis dos últimos tempos não é celular nem videogame. É um bichinho peludo chamado Moflin, pequeno o bastante para caber nas mãos, sem patas visíveis, sem tela e sem a utilidade prática de um assistente digital. Ele se mexe de leve, faz um som que pode lembrar o ronronar de um gato e reage quando é acariciado ou escuta a voz do dono. Custa mais de dois mil reais. Reportagens apontam para o interesse de mulheres adultas e pessoas que vivem sozinhas e que buscam companhia. Algumas levam o Moflin na bolsa, apresentam o robô à família e conversam com ele à noite. A Casio, empresa criadora, o apresenta como “um companheiro emocional, criado para oferecer conforto, reduzir o estresse e simular uma relação de afeto".
O Moflin não é uma esquisitice japonesa isolada. É a ponta visível de um movimento maior, que já chegou ao quarto do adolescente brasileiro. A pesquisa TIC Kids mostrou que 12% dos adolescentes de 15 a 17 anos, no Brasil, usam inteligência artificial para conversar sobre seus problemas pessoais e suas emoções. Nos Estados Unidos, um estudo encontrou proporção parecida: cerca de um em cada oito adolescentes e jovens, de 12 a 21 anos, usou chatbots de IA para buscar conselhos de saúde mental. A mulher que apresenta o bichinho à família e o adolescente que desabafa com uma IA generativa de madrugada estão, no fundo, fazendo a mesma coisa.
Os dois encontram um tipo de companhia que não discorda, não cobra e não decepciona. O Moflin não acorda de mau humor. A IA não se distrai enquanto você fala, não muda de assunto, não finge que presta atenção enquanto olha a rede social. Está sempre disponível, interessada e pronta para acolher e elogiar. Para uma pessoa cansada (e estamos quase todos cansados), isso é um alívio. E é por isso que vale refletir sobre o que esse alívio significa e sobre o que ele pode cobrar silenciosamente.
Porque toda relação de verdade, entre pessoas reais, mais cedo ou mais tarde tem algum tipo de atrito. Um amigo discorda no meio do almoço. Um filho adolescente se fecha sem explicar o motivo. A namorada esquece uma data importante. Nada disso é confortável, mas nem tudo que incomoda deve ser evitado. É na relação dialógica com o outro, quando a conversa não obedece inteiramente à nossa vontade, que a gente aprende a ser, a conviver, a se frustrar, a pedir desculpa e a sustentar uma relação que não cabe inteira dentro do nosso desejo. Uma relação sem atrito conforta, mas a máquina entrega a sensação de presença sem a parte que forma a nossa identidade.
Nada disso é argumento contra ter um Moflin, ou contra desabafar com um robô num dia ruim. Há solidão demais no mundo, e quem mora sozinho, quem perdeu alguém, quem não tem com quem falar em um momento específico merece qualquer alívio que encontrar. O problema não está em buscar conforto. Começa antes, num ponto mais difícil de enxergar: quando aquilo que nos consola começa a ocupar, sem alarde, o lugar daquilo que também nos forma para conviver.
Termino com uma pergunta que serve para quem comprou o robô e também para o pai que vê o filho conversar por horas com um aplicativo. Nas relações que te confortam hoje, quando foi a última vez que alguém discordou de você, frustrou uma expectativa ou cobrou alguma coisa? Se faz muito tempo, talvez valha olhar para isso com calma. Um mundo que começa a vender afeto sem fricção descobriu algo sobre o nosso cansaço. Falta descobrir o que sobra de nós quando até os vínculos deixam de nos atravessar.


