
Antes do dia clarear, a mãe sai para trabalhar. A vizinha prometeu olhar de vez em quando. Na mesa de jantar, ao lado do café da manhã e do lanche da escola, fica o tablet carregado, já aberto no aplicativo de vídeos infantis. Alguém pode achar que é descaso, mas foi o que coube naquela manhã.
No último domingo, Dia das Mães, um vídeo viral mostra a entrevista de uma menina que se emociona enquanto fala de mãe. Nas palavras dela, a mãe sai às cinco da manhã e às vezes não volta antes das três da madrugada para conseguir sustentar, sozinha, suas duas filhas. Boa parte do Brasil reconheceu a cena, mas quase ninguém se perguntou o que acontece dentro de casa enquanto a mãe está fora.
A OCDE acaba de divulgar os primeiros resultados brasileiros do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância, o IELS. A pesquisa ouviu crianças brasileiras de cinco anos em três estados. Um dado bate forte: 50,4% delas usam dispositivos digitais como celular, tablet ou computador todo santo dia. Só 11,4% das nossas crianças nunca ou quase nunca usam.
As crianças com uso diário tiveram, em média, 11 pontos a menos em matemática e 10 pontos a menos em vocabulário, comparadas às que não usam diariamente. O coordenador brasileiro do estudo, Tiago Bartholo, do LaPOpE/UFRJ, fez uma ressalva importante: "Uma coisa é uma criança fazer um uso diário de 30 minutos. Coisa muito diferente é fazer três a quatro horas. E a gente sabe que esse tipo de comportamento existe." Nosso questionamento aqui não é se a tela deve sumir. É o que aconteceu para que ela se tornasse, para metade das crianças brasileiras de cinco anos, a melhor opção de atividade.
Aqui, o IELS dá uma resposta indireta. Apenas 14% das famílias brasileiras leem para os filhos três ou mais vezes por semana, contra 54% da média internacional. 56% conversam regularmente com as crianças sobre como elas se sentem, contra 76% lá fora. 37% fazem atividades ao ar livre com frequência, contra 46%. A tela é parte de uma conjuntura maior. Ela ocupa o lugar de atividades mais saudáveis que outras famílias, em outros países, fazem com a criança quando ela não está na escola.
A tela não aparece por preguiça. Mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidado, sem remuneração, segundo o IBGE. Praticamente o dobro dos homens. E ainda tem o ônibus das seis que sempre atrasa, a marmita na bolsa, corpo e mente exaustos no começo da noite. A mãe que sai às 5h não tem condições de ler para a filha às 20h. Por vezes, cai no sono no sofá, com a roupa do dia. E quando olhamos para a vizinhança onde a filha cresce, falta segurança, praça, parquinho e creche em tempo integral. A maioria dos brasileiros, em especial os que têm menos recursos, vive em bairros que cresceram de forma desordenada e que priorizam o adulto com carro. Antes da criança pobre, o adulto de classe média. Iniciativas como a Rede Urban95, que está em 24 cidades brasileiras desde 2020, mostram que dá para mudar. Mas ainda são exceções.
Tem ainda o repertório. Mesmo nas famílias brasileiras de renda mais alta, a leitura regular para os filhos não passa de 25%. Quem nunca viu os pais lendo aprende a viver sem o hábito. O livro que muitas casas brasileiras nunca tiveram, em qualquer classe, foi substituído pelo vídeo ou pelo joguinho que cabe no bolso de qualquer mãe.
Por isso, a resposta não é cobrar das famílias o que elas não têm como entregar. A Lei 15.069, sancionada em 2024, instituiu a Política Nacional de Cuidados, que é um belo começo. Faltam licença-paternidade ampliada, jornada flexível para mães e pais de crianças pequenas, creche em tempo integral universal. E, antes de tudo, falta tratar o tempo de cuidar como direito, não como sobra do que o trabalho não consumiu.
Responsabilidade compartilhada não significa dividir a culpa em fatias iguais. A mãe que sai às 5h e a executiva que tem babá em tempo integral não estão na mesma posição diante do tablet. Tratar essas duas situações como se exigissem o mesmo grau de mudança é uma forma confortável de fechar os olhos para a injustiça da desigualdade.
O cérebro da menina de cinco anos, que usa o tablet por 4 horas por dia, está se formando agora. Quando a mãe voltar, à noite, vai encontrar a filha dormindo no sofá, com um vídeo passando. Vai desligar a tela, levar a filha para o quarto e dar um beijo de boa noite. Vai se perguntar, em silêncio, se seria uma melhor mãe se tivesse melhores condições. Talvez fosse. E talvez essa pergunta diga mais sobre o que somos como país do que sobre ela.

