
A manicure Fernanda Cunha, do Rio de Janeiro, achava que o filho de 15 anos usava o celular para ver futebol. Em março, descobriu que Kauã mantinha um perfil paralelo no TikTok. Lá, havia publicado um vídeo com a frase: “mulher é igual roupa, se não for a preferida, nós emprestamos para os amigos”. Fernanda acordou o filho de madrugada, entrou no perfil dele e gravou uma resposta dura, ainda no calor do susto. A bronca passou de 4 milhões de visualizações. Mas o que mais doeu veio depois. Nos comentários, outros adolescentes riam, curtiam, tratavam aquilo como piada. Quando ela perguntou por que ele tinha feito aquilo, Kauã respondeu: “fiz porque vi outros fazendo”.
A resposta do menino é quase um mapa. A pesquisadora Julie Ricard, da FGV, coordenou um estudo que mapeou a chamada machosfera brasileira no Telegram, um conjunto de canais e grupos onde misoginia se mistura a coaching financeiro, autoajuda fitness e teoria conspiratória. Em 2019, os pesquisadores encontraram cerca de 5 mil postagens nesses grupos. Em 2025, eram mais de 3 milhões.
A machosfera chega ao menino como se fosse conselho. Diz que ele perdeu privilégios, que o feminismo estragou o mundo, que sucesso se mede por músculo, dinheiro e domínio sobre mulheres. O pacote vem pronto, com identidade, inimigo e manual de conduta. Na maioria das vezes, aparece antes mesmo de ser procurado. Uma auditoria do centro de pesquisa contra bullying da Universidade de Dublin criou contas de adolescentes em branco no TikTok e no YouTube Shorts. Em 23 minutos, conteúdo masculinista começava a aparecer no feed. Em 2 horas, já dominava.
Os dados brasileiros mostram outra face do mesmo sofrimento. A Pense 2024, do IBGE, registra meninas com taxas mais altas de tristeza profunda e vontade de se machucar. Entre os meninos, a dor costuma aparecer por outro caminho: quase 16% se envolveram em brigas físicas no ano anterior. A TIC Kids mostra que só 28% dos meninos contam aos pais quando algo os incomoda online. Entre as meninas, a proporção chega a 46%.
Falta repertório emocional para muitos meninos nomearem o que sentem. E, quando não há palavra, sobra fórmula. O terapeuta Fabio Manzoli, que trabalha com adolescentes em um projeto dedicado ao tema, resume essa prisão assim: “A gente só pode sentir raiva, não pode ser sensível, tem que ser rígido, resolver tudo na pancada e jamais falar em sentimentos. É desumanizante”.
Tirar o celular costuma ser a primeira reação adulta, mas quase nunca resolve. O algoritmo volta a entregar quando o menino reabre o aparelho na casa do amigo, e a sensação de incompreensão que ele já carregava em casa só aumenta. O psicólogo social Benedito Medrado, da UFPE, propõe outro caminho: “Os homens não estão acostumados a falar, muitas vezes não sabem se expressar porque não aprenderam a fazer isso. É preciso investir no diálogo em casa e nas escolas”.
Em Novo Hamburgo, na EMEB Presidente Getúlio Vargas, esse diálogo virou projeto. Há dois anos, 40 meninos de 12 a 15 anos se reúnem em rodas para falar sobre o que sentem, o que escutam dos amigos e o que imaginam para a própria vida. O nome do projeto é Educação Emocional Masculina. O detalhe mais bonito é que ele foi criado por duas estudantes da própria escola, Iasmyn Petzinger e Isabella Dias, que perceberam o que faltava aos colegas antes de muitos adultos.
A machosfera chega com respostas prontas. Família e escola precisam chegar com perguntas melhores. Antes do sermão, antes do castigo, antes da bronca que até pode ser necessária, talvez caiba uma pergunta simples, feita sem deboche e sem pressa: “como você tem se sentido?”. Talvez ainda seja aí, nesse pequeno intervalo entre a vergonha e a palavra, que um menino consiga voltar para a conversa antes de ser capturado pela caricatura de homem que querem vender para ele.



