
Mariana tinha uma reunião difícil naquela manhã. Cliente em crise, time de advogados do outro lado falando uma linguagem técnica e fria, daquelas cheias de jargões que poderiam ter saído de qualquer petição. Quando chegou a vez dela, Mariana fez o que faz de melhor: abriu pelo retrato humano do caso. Um pai que ficou desempregado na semana do diagnóstico da filha. Uma decisão tomada às pressas, no susto. Só depois entrou a tese jurídica.
A sala mudou de temperatura. O cliente, que estava encolhido na cadeira, se aprumou. Até a advogada do outro lado parou de tomar notas por um instante. No corredor, na saída, um colega comentou baixinho: eu gosto quando você faz isso. As pessoas escutam diferente.
Mariana voltou para o escritório aliviada por ter passado bem pela reunião. Mas, ao fim do dia, era a frase do colega que continuava mexendo com ela.
Nas colunas dos últimos cinco sábados, falamos da nossa marca pessoal: como descobrir, como identificar, como perceber o estreitamento, como alargar o repertório com a ajuda da própria IA e como proteger o seu vocabulário (e a sua identidade) da invasão automática. Foram colunas sobre você. Sobre cuidar do seu jeito de pensar e se colocar num mundo cada vez mais padronizado. Hoje, na última do arco, a pergunta olha para fora.
A sua autenticidade não é só sua. Quando você fala do seu jeito, dá licença para outras pessoas falarem do jeito delas. Funciona como contágio. Um vírus positivo, que se espalha sem precisar de controle, sem campanha ou manifesto. Cada vez que alguém percebe que pode ser um pouco mais quem é de verdade, na conversa ou no jantar de família, abre brecha para que mais gente faça o mesmo.
Na semana passada, falamos da contaminação que vem das máquinas para nós. O vocabulário que invade, o padrão que se infiltra. Mas existe contaminação no outro sentido também. Quando você usa uma palavra que só você usa, alguém perto pode lembrar de uma palavra que só ela usa, e que tinha esquecido. Diversidade humana também pega.
Tem uma professora em Pelotas que explica fração levando os alunos para uma feira de bairro, porque foi assim que ela entendeu quando era criança. Tem aquele médico de Porto Alegre que desenha no papel, com caneta azul, para a paciente idosa entender o tratamento. Tem uma costureira que conversa com cada cliente sobre o evento antes de medir o tecido, porque o vestido começa antes da tesoura. Nenhum deles está tentando “ter marca pessoal”. Só estão trabalhando do jeito que aprenderam a ser úteis. E isso, quando aparece de verdade, pega.
Algumas semanas depois, Mariana estava orientando uma estagiária. A jovem estava prestes a enviar uma petição escrita inteira em vocabulário impecável, polida pela IA, sem uma vírgula fora do lugar. Mariana leu, devolveu, e disse uma coisa simples: comece contando, do seu jeito, a história do cliente. A estagiária perguntou por quê. Mariana respondeu: porque é quando você fica diferente das outras dez petições que vão chegar na mesa do juiz hoje. A estagiária reescreveu. Pareceu menos perfeita, mas ficou mais dela. Mariana sorriu ao ler a nova versão. O contágio pegou.
Naquela noite, Mariana saiu do escritório no fim do expediente, andou até o estacionamento, e percebeu que estava cantarolando uma música que a mãe cantava em casa quando ela era criança. Não era só a música. Era alguma coisa de antes voltando.
Para criar melhor com IA
Mapa dos contágios humanos
Tem coisa do jeito da sua mãe, do seu primeiro chefe, daquela professora de história ou do amigo de infância que você carrega sem perceber. Uma palavra, um gesto de receber uma visita, uma forma de explicar algo difícil que você aprendeu numa sala de aula há vinte anos. E há marcas suas que outras pessoas carregam sem que você ou a pessoa tenha planejado.
Abra uma conversa com a IA que você mais usa e cole o pedido abaixo:
Quero fazer um exercício de arqueologia afetiva. Vou pensar em voz alta com você sobre como me tornei quem sou.
Primeiro, vou listar três pessoas importantes na minha vida. Para cada uma, vou lembrar uma marca específica do jeito dela: uma palavra, um gesto, uma forma de falar ou agir, uma maneira de tratar. Sua função é me ajudar a aprofundar: que valor, história ou necessidade humana pode estar por trás dessa marca? E o que ela encontrou em mim para ter ficado?
Depois, vou listar três pessoas que talvez carreguem algo de mim. Quero identificar marcas minhas que tenha visto nelas. Me ajude a pensar no significado de cada marca transmitida, no que ela diz sobre mim e sobre a relação com a pessoa que recebeu.
Não me elogie e não simplifique. Faça perguntas quando precisar e me ajude a ver o que eu talvez não esteja vendo sozinho.
Esse exercício pede mais tempo que os anteriores. Talvez uma hora ou duas, pode ser dividido em duas conversas. Mas a recompensa também é maior: uma cartografia parcial dos contágios humanos que te fizeram, e dos que saem de você para o mundo. Esse é o tecido invisível da autenticidade que esta série tentou identificar.
Estas seis colunas formam um arco sobre autenticidade humana na era da IA. Se quiser receber as seis reunidas, em PDF, com prefácio inédito, inscreva-se aqui: parente.substack



