
Faz uns dias que o Google anunciou o lançamento de um novo tipo de computador. Ele se chama GoogleBook, e o slogan é “inteligência é a nova especificação técnica”. Em outras palavras, o valor de um computador, daqui para frente, não será medido só pela velocidade do processador ou pela quantidade de memória, mas pela forma como a inteligência artificial está integrada ao que ele faz.
O site de apresentação do produto traz uma lista de promessas. Você passa o cursor sobre a tela e o assistente de IA aparece imediatamente para explicar ou criar alguma coisa. Você descreve um aplicativo que imaginou, e a IA entrega. Os aplicativos do celular rodam no notebook sem precisar instalar nada. “Imediatamente”, “é só pedir”, “sem precisar instalar”... Não precisa ser especialista em Foucault ou análise de discurso para perceber que a venda se apoia numa promessa conhecida: economizar tempo, cortar trabalho e tirar do caminho o que atrapalha.
Tente se lembrar de um momento em que você precisou escrever um e-mail delicado. Uma resposta para um cliente, um questionamento à escola do seu filho, um texto para o síndico do condomínio que precisava ser firme sem deixar o seu lado Odorico Paraguaçu tomar o teclado. Você escrevia uma linha, apagava, olhava para o nada, recomeçava. Com um GoogleBook, esse ritual de hesitação desapareceria: bastaria descrever a situação, e a resposta viria pronta, educada e sem uma vírgula fora do lugar. O problema é que, naquele intervalo entre escrever, reavaliar, apagar e refazer, talvez você estivesse aprendendo a dizer melhor o que precisava ser dito.
Os engenheiros chamam essa resistência do dia a dia digital de fricção. É o que separa o querer do conseguir. Parte dela é só trabalho bobo, que merece ser automatizado: o atalho que você não decora, a planilha que precisa ser comparada, o arquivo que desapareceu da pasta como a meia em máquina de lavar. Quando o computador tira esse tipo de obstáculo, faz um favor real. Ninguém ficou mais sábio decorando atalhos.
Mas, naquele e-mail difícil, você não travou por causa de um botão. Você estava fazendo escolhas, medindo efeitos e avaliando consequências. Esse segundo tipo de fricção é menos visível, mas muito mais importante. Também demanda tempo e energia e te dá vontade de pular para o final. Só que formular o que se quer dizer, comparar caminhos, deixar um problema dormir com você até o dia seguinte e julgar se uma resposta pronta realmente serve não é atraso. É pensamento em curso.
O detalhe que muda tudo é que o mesmo computador atua sobre os dois tipos de fricção e oferece tudo embrulhado numa palavra simpática: agilidade.
Discutimos isso em um grupo de educadores de que faço parte e um colega me devolveu um contra-argumento perfeito. Quase toda tecnologia, ele lembrou, já foi uma promessa de eliminar trabalho, e quase sempre isso foi bom. A luz elétrica aposentou a tarefa de acender o lampião a gás. Ferramentas recentes permitiram que pessoas sem formação técnica criassem software. Ele tem razão. A delicadeza está justamente aí. É a mesma lógica de sempre, a de remover esforço, só que agora ela alcança uma nova camada: a do pensamento crítico e autônomo. O cérebro não vem com um aviso separando o conforto de pular uma tarefa mecânica do conforto de terceirizar uma decisão que precisava ser sua. Os dois chegam com a mesma sensação de alívio.
Por isso, não adianta perguntar se a fricção é boa ou ruim. A pergunta útil é: qual demora, exatamente, está sendo removida, e o que sobra da pessoa depois que ela some? Acender o lampião era atrito. Decidir a versão final de um texto nunca foi.
Pense no estudante que vai crescer com um notebook desse tipo. Toda vez que empacar numa redação, a frase seguinte aparece. Quando tiver dúvida, a resposta chega antes de a pergunta terminar de nascer. Não é o apocalipse. É uma hipótese que precisa ser pesquisada. O esforço de formatar um documento pode sumir instantaneamente. A competência de escrever um bom texto, inclusive quando o assunto é delicado, some mais devagar, sem aviso.
A saída, felizmente, não é negar a evolução tecnológica. O computador que tira o atrito também pode devolver a demora do tipo certo, aquela que obriga a pensar. Mas precisamos saber pedir isso, e a decisão final precisa continuar sendo nossa: decidir no que vale trabalhar, que pergunta levar adiante, como avaliar a qualidade de um resultado. O meu incômodo é que o aparelho foi desenhado para que essa parte pareça dispensável. Um computador que promete pensar no seu lugar pode cumprir a promessa. A pergunta é se, daqui a alguns anos, você ainda vai gostar do resultado.
PENSAR MELHOR COM IA
Uma pergunta de bolso e um exercício
Diante de qualquer facilidade nova, de um aparelho ou um aplicativo, pergunte-se: isto está me poupando atrito ou está atrofiando o meu pensamento? Quase tudo cai de um lado ou do outro, e perceber em qual lado está já muda o jeito de usar.
Para quem quiser ir além, proponho uma atividade para levar à sua IA de preferência. O pedido abaixo faz o contrário do que a maioria dos prompts faz. Em vez de entregar uma resposta pronta, ele devolve a você o trabalho de pensar.
Vou te descrever uma tarefa que entreguei à IA recentemente, ou que penso em entregar. Não resolva a tarefa e não me dê a resposta. Sua função é me ajudar a separar duas coisas: que parte dela era só atrito, esforço que não me deixava mais capaz, e que parte era o trabalho de pensar em si, formular a pergunta, comparar caminhos, ou decidir o que importa. Me faça uma pergunta de cada vez até que isso fique claro. No fim, me aponte o que eu posso ter terceirizado sem perceber. Não me elogie e não tente me agradar.


