
Roberto fez uma descoberta bonita.
Aos 26 anos, ele herdou do avô, um marceneiro conhecido em Caçapava do Sul, o seu velho caderno de capa dura, cheio de anotações. Na época, folheou rapidamente e o guardou numa caixa, como a gente guarda coisas de família que respeita o suficiente para não jogar fora, mas não sabe direito o que fazer com aquilo.
Há alguns meses, ele finalmente parou para prestar atenção. Tirou fotos de cada página e usou a inteligência artificial para transcrever e identificar os padrões que se repetiam ali.
O caderno do avô tinha muito mais do que ideias para usar na marcenaria. Tinha receita de mousse de cupuaçu, passada por uma cliente paraense, recorte de jornal sobre a arquitetura de Brasília, tipos de letras encontradas em placas de farmácias, um desenho de cabo de panela que viu numa feira de Buenos Aires, uma conversa sobre madeiras com um artesão italiano. Móveis apareciam também, claro. Mas só depois.
O avô olhava o mundo e trazia o que via em seu caderno.
Designer de produto há quinze anos, Roberto parou para refletir sobre o próprio consumo cultural. Lê três sites de design, segue umas duas dúzias de designers nas redes, vê os mesmos vídeos, escuta os mesmos podcasts e recebe as mesmas newsletters que boa parte dos colegas. Tudo de ótima qualidade, bem profissional.
E, exatamente por isso, um pouco estreito. Enquanto no caderno do avô se via de tudo um pouco, no dele só anotações frias e inteligentes sobre design.
Nas últimas duas colunas de sábado, falamos sobre um problema novo. A inteligência artificial ficou tão boa em fazer textos, projetos, imagens e apresentações que competência profissional, por si, já não diferencia como antes. O que passa a ter mais valor é o seu jeito único de fazer as coisas. Primeiro, falamos sobre como descobrir esse jeito. Depois, sobre como identificar com clareza qual é a nossa marca pessoal.
Hoje, a pergunta é outra: como deixar essa marca mais forte? A resposta mais direta é: amplie o seu repertório.
Repertório cultural é aquilo que fica em nós depois que o filme acaba, a conversa termina, a viagem passa e a música já não toca. São os livros que lemos, as séries que vemos, as histórias que ouvimos na mesa do almoço de domingo, os lugares por onde andamos, as pessoas que esbarramos, as comidas que provamos, as cenas que reparamos sem saber bem por quê.
Tudo isso forma uma espécie de banco invisível. Sua cabeça consulta esse banco quando precisa pensar, criar, escrever, liderar, resolver um problema ou tomar uma decisão. Às vezes, você acha que teve uma ideia do nada. Mas não é do nada. É alguma coisa antiga fazendo uma nova conexão.
Repertório se amplia quando você deixa entrar no seu mundo algo que não estava no script. Se você só lê livros profissionais, uma ficção pode ampliar. Se só escuta bailão, bossa ajuda. Se só fala com gente da sua área, conversas com o padeiro, a médica, o motorista de aplicativo, a artista ou o agricultor expandem a sua visão. Não é que uma coisa seja superior à outra, mas tudo o que entra na sua cabeça vindo de fora do seu mundo habitual, ajuda a alargar o repertório.
Isso importa por duas razões.
A primeira é antiga: quanto mais variado o seu repertório, mais conexões você consegue fazer entre coisas distantes. E muito do que chamamos de criatividade nasce justamente desses encontros improváveis entre mundos diferentes.
A segunda é nova: a IA aprende com o que foi mais publicado, visto, curtido, repetido e organizado na internet. Ela captura padrões em escala. Se você consome o que todo mundo da sua área consome, tende a pedir as mesmas coisas, com as mesmas referências, pelos mesmos caminhos. O resultado pode ser bonito, mas vai ser bem parecido.
A questão, então, não é consumir cultura como quem monta uma estante para impressionar na live. Nem transformar lazer em mais uma tarefa profissional, esse velho talento contemporâneo de estragar até o descanso.
A questão é perceber o que está formando o seu olhar.
Roberto entendeu que o caderno herdado era um mapa de atenção. O avô não se limitava à marcenaria. Ele anotava o mundo antes de transformar novas conexões em desenhos de móveis.
Talvez essa seja uma pergunta importante para todos nós agora. O que, em você, é repertório antes de ser trabalho? O que deixou de fazer parte da sua vida com a desculpa da falta de tempo?
A IA cria em segundos. Mas, se o repertório humano por trás do pedido está se estreitando, ela vai acelerar o estreitamento. A saída, então, não é consumir menos. É consumir mais e mais diverso. Reme na direção contrária à do mundo e, em vez de afunilar, alargue.
No próximo sábado, vamos usar a própria IA para alargar esse mapa intencionalmente. Por hoje, a tarefa é mais simples e talvez mais incômoda: descobrir o que você realmente anda consumindo.
Quando foi a última vez que você consumiu algo que ninguém da sua área consome?
Prompt para mapear o seu repertório cultural
Abra uma conversa com uma IA e cole o texto abaixo. Ela vai entrevistar você e devolver um mapa do que você está consumindo hoje.
Quero que você me ajude a mapear o meu repertório cultural: aquilo que consumo, frequento, observo e vivo, e que influencia meu jeito de pensar, criar e decidir.
Conduza uma entrevista comigo em duas rodadas curtas, esperando minha resposta antes de seguir.
Na primeira rodada, faça até oito perguntas sobre o que consumo numa semana típica: livros, filmes, séries, músicas, podcasts, redes sociais, sites, conversas, lugares, hobbies e assuntos que costumo pesquisar.
Na segunda rodada, depois das minhas respostas, faça perguntas mais profundas para identificar três aspectos: o que se repete sem eu perceber, o que parece automático e o que aparece no meu trabalho sem eu saber de onde veio.
Ao final, devolva um mapa do meu repertório atual em três partes: a) zonas fortes: o que já alimenta o meu olhar; b) zonas estreitas: onde estou consumindo sempre mais do mesmo; c) zonas ausentes: mundos que quase não entram na minha vida.
Não sugira ainda nada de novo. Só me ajude a enxergar onde estou hoje. Use linguagem simples, direta e honesta.


