
No último domingo, por todo o Brasil, várias IAs responderam ao prompt "me explique quem foi Milton Santos". Em quinze segundos, entregaram resumos eficientes de uma vida que atravessou o sertão da Bahia, a universidade brasileira, a prisão política, o exílio, quatro continentes, dezenas de livros e uma das críticas mais poderosas já feitas à globalização. Cabe tudo na tela, e talvez esse seja um problema.
Milton Almeida dos Santos completaria cem anos neste 3 de maio. Nasceu em Brotas de Macaúbas, interior da Bahia, neto de pessoas escravizadas, filho de professores primários que o alfabetizaram em casa e lhe ensinaram francês ainda criança. Aos dez anos, prestou exame em Salvador, passou em primeiro lugar e foi viver em um internato, longe da família.
Formou-se em Direito pela UFBA, mas escolheu a geografia, ciência que ajudaria a reinventar a partir de um olhar bem brasileiro. Tornou-se doutor em Estrasburgo. Foi preso pela ditadura em 1964. No exílio, lecionou em Toulouse, Bordeaux, Paris, no MIT, em Toronto, Caracas, Lima e Dar es Salaam. Voltou ao Brasil em 1977. Em 1994, tornou-se o primeiro latino-americano a receber o Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia. Escreveu mais de quarenta livros. Morreu em 2001.
Mas nenhuma biografia de Milton Santos cabe apenas na lista de títulos, cargos e prêmios. A neta, Nina, conta uma cena que ele próprio narrava sem rancor: num fim de semana na USP, ele foi impedido de entrar. O porteiro, também negro, duvidava que aquele homem pudesse ser professor titular ali dentro. Era o Brasil inteiro condensado numa portaria.
Milton passou a vida tentando explicar esse país que se moderniza sem se democratizar plenamente, importa técnicas sofisticadas sem repartir poder e empurra milhões de pessoas para sobreviver nos intervalos do sistema. Por isso, ele continua incomodando tanto. A sua obra fala do mundo de hoje, com algoritmos e inteligência artificial.
Em 2000, ao escrever Por uma outra globalização, ele disse à amiga Maria Adélia Souza que queria fazer um livro fácil, "para qualquer cara do povo entender". A frase revela uma ética. Milton era rigoroso sem ser hermético, e profundo sem fazer da profundidade uma senha de clube.
Talvez por isso sua leitura da técnica continue tão atual. Ele desconfiava de qualquer tecnologia que se apresenta como neutra, como se máquinas, redes e sistemas apenas funcionassem, sem carregar dentro de si as geografias e os interesses de quem as construiu.
Observar a inteligência artificial sob uma ótica "miltoniana” é lembrar que não há neutralidade em qualquer tecnologia que chega ao Brasil. Cada ferramenta vem com uma língua-mãe e uma visão de mundo embutida. Vem de algum lugar, treinada com certos textos e ajustada por mãos específicas. Ainda sob a sua perspectiva, a pergunta mais séria que precisamos responder agora é: quando aceitamos uma resposta pronta, o que estamos aceitando junto com ela?
Milton via a cidade brasileira dividida entre circuitos: de um lado, quem acessa capital, tecnologia, informação e mediação qualificada; de outro, quem improvisa a vida com os restos. Em 2026, esses circuitos continuam vivos, só mudaram de interface. Estão no celular barato com internet instável. Estão no professor que tenta planejar aula depois de três turnos, e no gestor público encantado com dashboards que explicam tudo, menos o chão que pisa.
A tecnologia pode ampliar dignidade. Pode ajudar professores, médicos, estudantes e pesquisadores, e abrir caminhos antes impensáveis. Mas, sem política e sem gente pensando por conta própria, ela também pode sofisticar a desigualdade com uma eficiência assustadora.
Milton Santos entendeu cedo que o problema nunca foi a técnica em si. O problema é quem decide para que ela serve, e quem fica invisível no mapa que ela desenha. Talvez a homenagem mais honesta a ele, cem anos depois, seja fazer o que ele sempre defendeu: desconfiar das explicações fáceis e perguntar quem tem o direito de definir o mundo.





