
Em agosto de 2024, o Banco Central fez um raio-x das movimentações financeiras no país. Só naquele mês, 5 milhões de brasileiros que recebem Bolsa Família apostaram online, e R$ 3 bilhões saíram de suas contas via Pix para plataformas de aposta.
Boa parte desse dinheiro saiu de famílias já endividadas.
O dado não foi um pico isolado. Em 2025, segundo o Cetic, 30 milhões de brasileiros apostaram online, quase um em cada cinco usuários de internet no país. As bets viraram o segundo destino mais visitado da internet brasileira, só perdendo para o Google. Estudo recente do Ibevar e da FIA Business School mediu o peso de juros, crédito e bets no endividamento das famílias entre 2011 e 2025: as bets já pesam mais do que os outros dois. Em 15 anos de série, é o único fator novo que mudou a curva.
Como tanta gente chegou a esse comportamento? A resposta curta é: engenharia. Tudo no aplicativo foi pensado para reduzir a sua resistência. A resposta longa é: química cerebral.
As plataformas de bets usam o mesmo recurso que faz o caça-níquel funcionar há quase um século. Chama-se recompensa variável: você não sabe se vai ganhar nem quanto vai ganhar. É a aleatoriedade que vicia, não o ganho em si. Estudos clássicos de psicologia, desde os anos 1950, mostraram que essa imprevisibilidade ativa o circuito de prazer do cérebro com muito mais força do que recompensa certa. As bets pegaram esse achado, somaram animação de moeda caindo, cores, sons, gamificação, e plugaram no Pix.
O Pix é a parte brasileira da equação. Ele eliminou a última barreira que existia entre a vontade e a perda. Antes, para apostar, você precisava ir até uma casa de apostas, encarar uma fila e ver o dinheiro saindo da sua carteira. Hoje, são alguns segundos de cliques, do impulso à transferência.
O Datafolha mostrou as principais motivações: 46% dos apostadores apostam para conseguir renda extra ou pagar conta. As bets se vendem como entretenimento. Para quase metade de quem aposta, viraram tentativa de pagar conta.
Quem é atingido? Quase todo mundo, mas o peso é desigual. Mais de 1 milhão de adolescentes brasileiros já apostaram, segundo a Unifesp, e cérebros em formação são mais vulneráveis a desenvolver dependência. O problema atravessa toda a estrutura familiar. Casamentos terminam, casas são vendidas, filhos descobrem que o dinheiro do aluguel ou do mercado virou fichas de jogo. O psiquiatra Hermano Tavares, do HC-USP, referência nacional em ludopatia, sintetizou o que está acontecendo: o país instalou um cassino em cada bolso.
Há quem responda a tudo isso com um diagnóstico histórico: nos falta educação financeira. É verdade, mas não é a resposta completa.
O Brasil tem baixo letramento financeiro, mas educação financeira ajuda pouco quando há algoritmos das bets atuando nos circuitos cerebrais que decidem se vale a pena tentar “só mais uma vez”. O cérebro humano não aprende com a perda como aprende com o ganho; esse desequilíbrio é desigual de fábrica, e o design das bets explora exatamente esse ponto cego. Planilha financeira não consegue competir com sistema desenhado para vencer a hesitação humana.
Em março, entrou em vigor o ECA Digital, lei que impõe novas regras de proteção a crianças e adolescentes na internet, incluindo restrições à publicidade de bets direcionada a menores e proibição de acesso de crianças e adolescentes a aplicativos de apostas. Em abril, o Ministério da Justiça notificou Google e Apple porque continuam disponibilizando aplicativos de bets para menores em suas lojas. A regulação está chegando, mas lentamente. E fragmentada, diante de um mercado que cresceu 10 vezes em 4 anos. O lobby cresce de forma proporcional.
Quem desenha esses sistemas sabe o que faz. Cada cor, som, ritmo é pensado para diminuir a resistência. Há ciência e desenho intencional. E se cada intenção tem autor, há quem deva responder por isso. A pergunta que segue em aberto é: quando a sociedade vai exigir que quem desenha essas plataformas responda pelo dano que elas causam?
Quando 5 milhões de pessoas passam a adotar o mesmo comportamento autodestrutivo em um mês, o problema não é de caráter ou fraqueza individual. É design. E quem desenha precisa ser responsabilizado.




