
Outro dia, eu estava escrevendo um dos textos sobre inteligência artificial na educação. Abri uma IA, joguei minhas ideias iniciais e pedi que organizasse os pensamentos. Ela devolveu um texto limpo, bem estruturado e com alguns dados extras, tudo bem bacana. Mas olhei para aquilo e pensei: isso aqui não tem a minha voz.
Reescrevi a maior parte, mudei a abertura, juntei dois parágrafos e acrescentei uma cena de uma lembrança antiga. Mandei de volta e perguntei: e aí, o que achou? “Esse texto tem mais a sua cara”. Não me dei por satisfeito. Pedi a outras IAs que criticassem e dessem sugestões e continuei o trabalho colaborativo até chegar na versão que curti de verdade.
Esta é a centésima vez que isso acontece, meu texto de número cem por aqui. Eu poderia fazer uma retrospectiva, uma lista de lições ou um agradecimento emocionado. Mas o que mais me importa é contar o que descobri fazendo isso cem vezes, o que me assusta e para onde pretendo ir, se vocês concordarem.
A primeira descoberta é constrangedora. A IA escreve mais rápido, de forma mais organizada e com menos erros. Quando a máquina gera um parágrafo decente em três segundos, você percebe que a maior parte do que chamamos de "escrever" é, na verdade, organizar bem as informações. A parte que é realmente sua, o jeito de olhar, o incômodo que te cutuca, a frase que sai torta porque precisa sair torta, essa parte a máquina não faz. Mas ela te obriga a encontrá-la. Toda vez. A verdade é que escrever com IA complica mais do que simplifica porque te confronta com uma pergunta que a maioria dos escritores evita por uma vida: o que sobra de mim quando tiro a parte que qualquer um poderia ter escrito? O que tem aí que é estilo, voz e cara de Rafael Parente?
A segunda descoberta é sobre quem lê. Aprendi a prestar atenção não no que atrai o leitor, mas no que o segura no texto. E, sendo bem sincero, nunca foi o texto que eu achava o mais brilhante. É o mais útil. A coluna sobre como a IA pode ajudar no dia a dia prendeu o dobro da média. A que tinha o título mais ambicioso gerou muito clique e pouco tempo de leitura. O leitor de 2026 não quer ser impressionado. Ele está cansado do click bait e quer ser ajudado a entender o que está acontecendo com ele. Isso mudou a forma como penso cada texto. Antes, eu começava pelo que eu queria dizer. Agora, começo pelo que o leitor está sentindo. A mãe com a filha de doze anos que não desgruda do celular. O professor que não sabe se deve proibir ou incorporar a IA na aula. O profissional que usa a IA todo santo dia, mas tem vergonha de admitir. A coluna começa nessas pessoas e eu chego depois.
A terceira descoberta é a mais difícil de carregar. Num evento recente, uma professora me parou no corredor para agradecer porque as colunas estavam falando sobre o que ela via acontecendo dentro da sala de aula e que ninguém estava dizendo. Pelas redes, um pai escreveu que precisava me agradecer porque mudou a forma como lida com as telas em casa. Eu deveria ficar feliz com isso. E fico. Mas o que sinto com mais força é vertigem. Porque se uma mãe está decidindo sobre o uso de celular da filha com base no que eu escrevo, e se uma professora está repensando sua prática depois de ler uma coluna minha, então cada dado que incluo, cada argumento que construo, cada frase que uma IA sugere e eu adapto tem consequências reais na vida das pessoas.
Essa responsabilidade me acompanhou nos últimos dias. Na terça, ao escrever sobre uma empresa de IA que disse não ao Pentágono quando ele exigiu acesso irrestrito para armas autônomas. Na quinta, ao olhar para os dados da Pense mostrando que 43% das meninas brasileiras relatam sofrimento emocional grave e que o peso das telas recai com mais força sobre quem menos pode se defender. Hoje, ao olhar para mim mesmo e me perguntar: eu estou à altura do que escrevo?
Em algum momento desse último ano, eu parei de escrever sobre inteligência artificial e comecei a escrever sobre o que acontece com gente de verdade quando a máquina entra na sua vida. A tecnologia deixou de ser o assunto e passou a ser o cenário. A pergunta que volta toda semana é a mesma: o que acontece com a gente quando a inteligência deixa de ser exclusivamente nossa?
Eu, sinceramente, não sei a resposta.
Mas sei para onde quero caminhar. Nas próximas colunas, vou investigar três caminhos que essa pergunta abre: o que acontece com o pensamento quando a máquina pensa junto, o que acontece com a criação quando a máquina cria junto, e o que acontece com a educação quando a máquina ensina junto. Pensar, criar e educar. As três coisas que nos fazem mais humanos e que agora colaboramos com algo que não é humano e nem se preocupa em ser.
Esta coluna foi escrita com o apoio de diferentes IAs. Todas as cem foram. Mas as ideias que me levaram a escrevê-las aparecem de madrugada e são rabiscadas num caderno. As IAs ajudam a organizá-las, mas quem perde o sono sou eu.
E quando olho para o texto que a máquina me devolve e penso "isso não sou eu", é justamente aí que o trabalho começa.
Agradeço, de coração, ao Zero Hora pela plataforma, à minha editora Dione pelo olhar e a todos que me apoiam e me acompanham por aqui.



