
Segunda-feira, 7h15. Uma menina de 14 anos acorda com o despertador, sem notificações esperando. No café, a mãe pergunta alguma coisa sobre o fim de semana e ela responde com a boca cheia. Na escola, o celular não está no bolso porque não há celular. No intervalo, discute com uma amiga por causa do BBB. Volta para casa irritada, descansa, lê um livro, assiste uma série, janta e dorme às dez.
Segunda-feira, 7h15. Outra menina de 14 anos acorda antes do alarme, preocupada com a repercussão da foto que postou. Sem sair da cama, vê stories, reels, mensagens. Alguém publicou uma foto da festa de sábado, aquela que ela não foi convidada. Na escola, o celular vibra no bolso o tempo todo. Ela tenta olhar escondido. No intervalo, rola o feed. Em casa, entra no quarto e fecha a porta. Janta rápido, celular na mão. Às 23h, ainda compara o próprio corpo com o da influencer que nunca viu de perto. Dorme à 1h. Acorda cansada.
As duas existem.
Uma cresce em um ambiente com limites claros. A outra, em um ambiente que não desliga nunca.
A primeira não vive um dia perfeito. Se irrita, briga, se entedia. Mas há pausas. Há silêncio. Há momentos em que nada acontece, e é nesses espaços que sua subjetividade vai se definindo.
A outra também é inteligente, curiosa, cheia de potência. Mas passa horas dentro de um sistema arquitetado para não deixá-la em paz.
Os números ajudam a entender a escala. A PeNSE 2024 ouviu mais de 118 mil adolescentes. Três em cada dez dizem que se sentem tristes com frequência. Quase um em cinco acha que a vida não vale a pena. E há aquele número que deveria soar um super alarme social: enquanto 16% dos meninos relatam tristeza constante, entre as meninas são 41%. A menina do segundo parágrafo não é exceção. É maioria.
Cem mil estudantes brasileiros se machucaram de propósito no último ano.
Mas os números não entram no quarto.
A luz da tela acesa depois da meia-noite. A casa em silêncio, mas um silêncio que não descansa. A porta fechada. Do lado de fora, um adulto que não tem ideia do que está acontecendo.
Essa menina não precisa de mais disciplina. Precisa de alguém que olhe para essa cena e decida exercer o papel de responsável: proteger, com afeto e com firmeza. Alguém que decida o lugar e o tempo do celular. Se o dia termina quando o corpo precisa ou quando o algoritmo deixa.
A que horas seu filho vai dormir? O celular fica no quarto?

