
Começamos a semana pedindo a inteligências artificiais que reinventassem a escola. O resultado foi quase igual: uma escola linda, sem fome, sem política e sem professor mal pago. Na quinta, falei de números do IBGE e de uma menina de 14 anos que não precisa de uma escola reinventada por algoritmo. Precisa de um adulto que exerça o seu papel com afeto e firmeza. Nas duas colunas, o problema era o mesmo: alguém deixou de fazer a parte que só um humano pode fazer.
Escrevo sobre inteligência artificial há mais de dois anos. Só aqui, já foram mais de cem colunas. Três por semana, toda semana. Nesse tempo, uma coisa ficou clara: a IA amplifica.
Amplifica o raciocínio de quem raciocina e a preguiça de quem terceiriza. Amplifica a criatividade de quem cria e a produção em série de quem copia. E amplifica a presença do professor que olha nos olhos tanto quanto a ausência do pai distraído no celular enquanto o filho faz de tudo para chamar a atenção.
A única coisa que todos os textos que escrevi têm em comum é uma inquietação que não se resolve: o que estamos amplificando?
A IA amplifica o pensamento quando ajuda um aluno a compreender um conceito difícil. Mas, quando o mesmo aluno pede que ela escreva uma redação por ele, amplifica a desistência de pensar. A ferramenta é a mesma. O aluno também. O que muda é o jeito de usar.
Ela me apoia na escrita das colunas. Organiza ideias, sugere caminhos, às vezes devolve versões mais bem estruturadas. E aí entra a escolha: publico como veio ou uso como espelho para descobrir o que eu realmente queria dizer? Na centésima coluna, contei que faço a segunda opção. Dá mais trabalho. Quase sempre demora mais. Mas é o que separa usar a ferramenta de ser conduzido por ela.
Depois de cem colunas, três verbos começaram a aparecer com mais nitidez nas nossas conversas, mesmo antes de serem nomeados. Pensar. Criar. Educar.
Pensar, quando a resposta chega antes da pergunta. Criar, quando produzir fica mais fácil e se expressar com autenticidade fica mais difícil. Educar, quando uma geração inteira cresce ao lado de sistemas que nunca param.
Pensar melhor. Criar melhor. Educar melhor.
Esse “melhor” não é promessa, é escolha.
A IA amplifica sem critério. Amplificar é automático. Mas… ampliar exige intenção. Cabe ao humano decidir aquilo que merece crescer.
Nas próximas colunas, vamos explorar esses territórios. Não como programa, mas como investigação. Vou errar, vou mudar de ideia, vou trazer dados que incomodam e perguntas que não têm resposta clara ou definitiva. Como fiz nas cem colunas anteriores, só que agora com um fio mais visível.
A pergunta norteadora, aquela que fica depois que a tela apaga, é: se a IA amplifica tudo, o que em você vale a pena ampliar?
Antes de abrir uma IA daqui a pouco, experimente fazer o seguinte. Pegue um pedaço de papel. Qualquer um. Escreva, à mão, completando uma das frases:
“Eu quero pensar melhor sobre…”
“Eu quero criar…”
“Eu quero ensinar meu filho a…”
Não precisa ser profundo, bonito, ou correto. Só precisa ser seu.
Antes da máquina, o humano. É onde tudo começa.


