
Depois de uma semana pensando em decisões que não devemos terceirizar, chego hoje a uma mais íntima, e, talvez, mais incômoda.
Outro dia, participei de um evento online com apresentações que beiravam o impecável. Slides limpos, argumentos em ordem, linguagem correta; estava tudo no lugar. Ainda assim, saí com a sensação de que faltava algo. Havia excesso de informação e uma carência de alma. Nada ali era realmente memorável.
A IA já produz textos, apresentações, sites, aplicativos, relatórios e até raciocínios provisórios com um nível de competência que, até pouco tempo atrás, bastaria para distinguir um bom profissional. Competência, sozinha, começou a virar commodity. O que antes impressionava, agora só passa na catraca.
Muita gente tem sentido isso. Ao usar IA para redigir textos profissionais, a boa impressão inicial começa a dar lugar a um desconforto. O material está bom, às vezes muito bom. Só que falta uma marca. Falta um charme, “o molho”, aquele detalhe espontâneo que só você sabe fazer. Pode ser no jeito de construir a ideia, de acertar o tom, de antecipar a objeção ou de encaixar aquela piadinha que, mesmo meio tiozão, faz toda a diferença.
Isso vale para mais gente do que parece. Para a professora que tem um jeito único de explicar, para o gestor que conduz uma reunião sem transformar todo mundo em zumbi de PowerPoint, para quem escreve, desenha, vende, lidera e convence. Num mercado cada vez mais inundado de produções artificiais, a singularidade humana deixou de ser charme autoral. Virou ativo estratégico.
Não estou falando daquele “seja autêntico” que aparece em negrito no meio de frase de autoajuda em um card com pôr do sol na orla do Guaíba. Estou falando de valor percebido. Marca reconhecível vale mais.
O problema é que quase ninguém aprende a encontrar e desenvolver o seu “molho”. Estilo não é brinde que a vida entrega junto com o CPF. É construção, sequência de escolhas. É o tipo de coisa que a maioria de nós desenvolveu sem perceber, enquanto fazia seu corre. Agora que a máquina assume partes crescentes do trabalho, não basta fazer de forma competente. É preciso ter clareza sobre o que, daquilo que você faz, não pode ser terceirizado.
Existe um jeito simples de começar. Pegue um texto seu, uma apresentação, um e-mail que você achou o máximo. Peça à IA para imitar seu estilo em uma nova peça, com um outro tema. Compare. O que ela reproduziu com facilidade provavelmente já virou fórmula. O que ela não conseguiu capturar, o desvio, a cadência, a associação improvável, é ali que costuma morar o que é só seu. A IA funciona como um espelho estranho: reflete o padrão com precisão e, por isso mesmo, também revela o que escapou dele.
Quero usar os sábados para voltar a esse tema. Num mundo em que a IA passa a replicar a parte técnica de quase tudo, descobrir, desenvolver e proteger o que em nós ainda não virou fórmula deixou de ser luxo. Virou estratégia. O que, em você, vale a pena proteger para ampliar?
Para criar melhor com a IA:
Pegue um texto, uma apresentação ou um e-mail de que você se orgulha de ter criado. Peça à IA para imitar o seu estilo e a sua voz. Compare o seu material ao material da IA. O que ela não conseguiu reproduzir bem pode ser o que mais vale a pena desenvolver. Esse não é um exercício de vaidade, mas de diagnóstico daquilo que é só seu. Complete:
Encontrei o meu molho:



