
Perguntei às inteligências artificiais como elas reinventariam a escola. “Pode sonhar alto e mudar tudo: currículo, método, avaliação e gestão. Me descreva uma manhã típica”.
Todas as cinco, sem se consultar, sonharam a mesma escola.
Mudam os nomes: Synapse, Sinergia, Escola Conectada. Mudam as embalagens: pods de aprendizagem, núcleos de exploração, estúdios híbridos. Mas, por baixo da maquiagem, o esqueleto é idêntico: grupos organizados por missões, projetos interdisciplinares, avaliação por portfólio, assembleias democráticas, IA como copiloto cognitivo e, em algum canto do texto, uma pausa para mindfulness. Como se existisse, no fundo de toda IA, um template invisível da “escola perfeita”. Um sonho médio, montado com artigos genéricos sobre inovação e manifestos de edtech.
O problema é que nesse sonho não chove, não falta merenda e a rede wi-fi nunca falha. Uma das IAs propôs analisar o sono dos alunos por wearables. Outra sugeriu blockchain para transparência nas decisões. Uma terceira desenhou um sistema de governança algorítmica. Tudo funciona perfeitamente, como se fosse uma mistura perfeita de queijo com goiabada que nunca estraga.
A palavra “dinheiro” não aparece. “Greve” também não. O professor ali não ganha R$ 5 mil por mês. Nenhum diretor foi indicado pelo vereador. Nenhuma mãe trabalha dez horas por dia e, por isso, não consegue ir à assembleia semanal que as IAs recomendam com entusiasmo.
Autonomia aparece em todas as respostas. É claro que ela importa, hoje mais do que ontem. Em 2013, ajudei a criar uma escola na Rocinha chamada GENTE, onde demos autonomia real a adolescentes que nunca puderam fazer qualquer escolha. O primeiro efeito não foi empoderamento, foi pânico. Uma aluna pediu transferência. Disse que era como abrir a gaiola de um pássaro que nasceu preso: o pássaro não sabe voar. Nenhuma das cinco IAs modelou esse momento.
O GENTE tinha quase tudo o que as IAs listaram: personalização, projetos, tecnologia, avaliação contínua. Tinha também tiroteio no entorno, aluno com fome, bullying, professor inseguro e uma diretora que resolvia, ao mesmo tempo, o sistema de avaliação e o vazamento do banheiro. Era uma escola real, para corpos reais, em um lugar muito real, atravessada por decisões políticas que, um dia, simplesmente decidiram que o projeto não existia mais.
A descontinuidade política não aparece nos dados de treinamento de nenhuma IA. Para elas, política educacional é um conjunto de decisões racionais. Para quem viveu, é a voz no telefone, numa sexta-feira, avisando que na segunda aquilo tudo acabou.
Em meio a tanta convergência, um elemento me parou. Uma das IAs sugeriu que, ao final de cada manhã, um aluno apresentasse o que a IA o ajudou a fazer e outro apresentasse o que conseguiu fazer apesar da IA. Essa ideia não precisa de blockchain, de wearable ou de campus ultra hitech. Precisa de um professor que entenda a diferença entre usar a ferramenta e ser usado por ela.
Talvez o exercício mais interessante, hoje, não seja o de perguntar como reinventar a escola, mas aprender a enxergar a que existe e trabalhar a partir dela.
Quando você olhar para uma escola, repare no que sustenta o dia quando nada funciona: quando chove, quando falta professor, quando o planejamento não dá certo. Repare se a tecnologia organiza ou confunde, se a autonomia orienta ou abandona, se o projeto vive para além da apresentação na reunião. Repare, sobretudo, se há adultos que se importam e que são capazes de transformar até os problemas em aprendizagem com sentido.
Porque é nesse chão, e não no sonho genérico, que se decide se uma escola prepara alguém para o mundo que está chegando.
Esta é a quarta e última coluna da série A Reinvenção da Escola.




