
Mariana ganhava todas.
Advogada experiente, tinha um jeito específico de construir o argumento jurídico. As petições começavam detalhando um aspecto bem humano do caso. Um cliente que perdera o emprego na semana do diagnóstico. Uma mãe obrigada a escolher, no mesmo mês, entre dois remédios caros. Depois, vinha a letra da lei. Os colegas diziam que ela escrevia peças que os juízes liam até o fim, o que no mundo jurídico já beira o sobrenatural. Mariana não sabia explicar como ela fazia o que fazia. Só fazia.
No início do ano, ela passou a usar inteligência artificial para ser mais produtiva. Os textos saíam rápido. Corretos, bem construídos, tão uniformes que podiam ter saído de qualquer escritório com decoração fria e pastel.
Alguns meses depois, vieram duas sentenças desfavoráveis em casos que ela provavelmente teria ganhado. Um colega comentou, quase de passagem: suas peças ficaram corretas demais.
No sábado passado, esta coluna falava do espelho da IA. Hoje, o espelho são os outros e a IA é câmera escondida.
Ela capturou a moldura de Mariana: a estrutura da argumentação, o jargão, a cadência das transições. Mas deixou escapar o gesto inicial. Aquele parágrafo em que Mariana desacelerava e abria pelo retrato humano antes de subir para a tese. Esse gesto era dela. Vinha de anos ouvindo clientes chorarem no primeiro atendimento. Vinha de uma professora de processo que repetia que juiz decide com a mão esquerda e justifica com a direita. Vinha do pai, advogado trabalhista, que dizia, nos jantares de domingo, que a parte mais difícil de ganhar uma causa é fazer um juiz se importar.
Ninguém tinha contado à Mariana que era ali que morava sua força. Nem ela sabia.
É disso que estou chamando de autenticidade. Ela não mora na personalidade marcante, porque há gente carismática que escreve textos de dar dó. Também não mora na originalidade pura, como se alguém produzisse do zero. Mora em lugar mais discreto e mais profundo: na coerência entre a vida vivida e o gesto profissional. E costuma aparecer quando a vigilância relaxa, nos pequenos descuidos em que a gente volta a ser quem é.
O problema é que raramente sabemos nomear a nossa própria marca. Você, provavelmente, também não. Mariana vencia todas sem precisar traduzir o seu método para si mesma. Até que a IA assumiu a parte explicável do trabalho. Foi quando o elemento único, aquele que não cabe em manuais, começou a desbotar. Quando a ferramenta domina a superfície, o que não tem nome atrofia por falta de uso.
Foi aí que Mariana fez um teste que, antes da IA, seria quase impossível. Separou três petições antigas e pediu ao sistema que descrevesse, em cinco pontos, o que aparecia ali como marca autoral: tipo de frase, estrutura, escolhas recorrentes, o que se repetia sem ser óbvio. Depois, pediu três versões curtas sobre um mesmo tema: uma no estilo dela, uma genérica, outra no estilo oposto, mais formal. Misturou tudo, tirou a identificação e enviou a três pessoas que a conheciam em contextos diferentes: um colega de escritório, uma amiga da faculdade, um cliente antigo. Fez uma única pergunta: Qual dessas você juraria que fui eu quem escreveu?
Dois acertaram. Um escolheu a genérica.
A confiança dela oscilou de um jeito novo. Cresceu porque sua assinatura ainda era reconhecível. Encolheu porque uma versão sua podia ser confundida com o neutro correto de qualquer máquina. Depois disso, Mariana voltou a escrever à mão a primeira parte das petições. Era defesa.
Antes da IA, falsificar plausivelmente o próprio estilo para submetê-lo a um teste cego era coisa de ficção. Agora, virou método.
Num mundo em que a máquina já produz bem quase tudo, autenticidade deixa de ser enfeite e passa a ser vestígio de vida. A IA aprende o padrão. O percurso, não.
O que, em você, nenhuma máquina viveu para escrever?
Para criar melhor com a IA
Teste cego de autoria, em dois passos
- Peça um retrato da sua assinatura: envie à IA três textos seus, como e-mails importantes, apresentações ou trechos de artigos. Pergunte: quais cinco marcas de estilo aparecem aqui de forma recorrente? Peça observações sobre tipo de frase, estrutura, escolhas lexicais e padrões que se repetem sem chamar atenção.
- Faça um teste sem identificação: peça três versões curtas sobre o mesmo tema, usando o perfil traçado acima: uma no seu estilo, uma genérica e uma em registro bem diferente. Misture as três, retire a identificação e envie a pessoas que conheçam você em contextos distintos. Pergunte apenas: qual dessas fui eu quem escreveu?
Quando há convergência, aparece um traço da sua assinatura. Quando há divergência, aparece outra coisa valiosa: a distância entre a imagem que você tem de si e a marca que de fato deixa nos outros.


