
Oscar Schmidt nos deixou na última sexta-feira (17). Tinha 68 anos e convivia há quinze com um tumor no cérebro. A lembrança que fica é a de alguém que vivia por inteiro, com energia, carisma e uma presença que ocupava a quadra toda.
O irmão Tadeu resumiu da melhor forma: “Ninguém jogou com tanto amor como ele.” E essa frase ficou comigo por todo o fim de semana. Eu não pensava no esportista nem na figura pública. Pensava no homem que fez escolhas difíceis e corajosas. Ele não foi um gigante apesar de suas decisões, mas graças a elas.
E aí estão três lições importantes para quem pensa educação na era da inteligência artificial.
A primeira lição tem a ver com aquilo que você decide não terceirizar
Em 1984, a NBA chamou e Oscar disse não.
Naquele tempo, quem jogava na liga não podia defender a seleção de seu país. E Oscar não queria abrir mão do Brasil. Recusou a maior vitrine possível para qualquer jogador de basquete porque preferia ser fiel ao que, para ele, tinha mais sentido.
Três anos depois, em Indianápolis, o Brasil perdia a final dos Jogos Pan-Americanos para os Estados Unidos por 20 pontos, na casa deles. Oscar fez 46 e liderou a virada brasileira. Essa foi uma das partidas mais importantes da história do esporte brasileiro.
Tenho pensado nisso porque vivemos numa época em que a IA oferece um monte de atalhos. Escrever, planejar, resumir, corrigir, organizar. E a pergunta mais frequente hoje em dia é “o que eu consigo automatizar?”.
Só que a pergunta mais importante pode ser outra: o que você decide continuar fazendo com o coração inteiro, mesmo quando existe um atalho?
Há coisas que realmente melhoram quando a tecnologia entra em cena. Mas há outras que, quando terceirizadas, levam junto um pedaço de nós: a escuta de um aluno, o cuidado ao formular uma pergunta, o esforço de amadurecer uma ideia, a construção da própria identidade.
Essa escolha não é sobre eficiência, é sobre vínculo.
A segunda lição é que talento virou ponto de partida
Oscar tinha talento, claro. Mas o talento nunca explicou sozinho quão gigante ele era.
O que explicava era a devoção. Ele treinava depois que os outros iam embora, arremessava centenas de vezes, repetia o gesto até que ele deixasse de ser esforço e virasse linguagem.
Isso importa porque a IA mudou o valor relativo de muitas competências. Coisas que antes exigiam muito tempo de domínio técnico ficaram mais acessíveis. Não para todos, porque o Brasil continua distribuindo acesso, repertório e oportunidade de forma profundamente desigual. Mas, para quem pode entrar nesse jogo, a distância entre o iniciante e o experiente encolheu.
Nesse cenário, talento vira ponto de partida.
A escola brasileira passou tempo demais perguntando apenas o que o estudante sabe fazer. O nosso tempo exige outras perguntas: o que o mobiliza de verdade, em que tarefa ele insiste mesmo quando dá trabalho, que assunto faz seus olhos brilharem, o que ele escolhe aprofundar quando ninguém está mandando.
Numa era em que a técnica tende a se espalhar mais rápido, o diferencial mora cada vez mais na qualidade do encantamento, na disciplina que nasce de dentro, no amor sustentado por prática. Oscar nos lembra disso. O que o separava dos outros não era só dom. Era entrega.
A terceira lição é saber o que não está à venda
Talvez a maior lição de Oscar seja esta: ele sabia o que não era negociável.
Isso vale muito numa era em que o algoritmo recompensa visibilidade, velocidade e presença constante. A IA amplia alcance, escala, produtividade. Tudo convida ao excesso. Apareça mais, produza mais, responda mais rápido.
Oscar fez o caminho inverso. Não por não ser ambicioso, mas porque entendia a diferença entre querer vencer e se entregar por inteiro à lógica da vitrine.
Essa talvez seja uma das aprendizagens mais importantes para a educação. Saber usar bem as ferramentas disponíveis será indispensável. Saber fazer perguntas melhores, checar respostas, combinar repertório humano com apoio de máquina, tudo isso importa. Mas nada disso substitui uma pergunta bem mais complexa: o que, em você, não está à venda?
Está aí o professor que prepara uma boa aula mesmo quando seria mais fácil improvisar, a gestora que sustenta uma decisão ética quando a pressa empurra para o outro lado, o estudante que usa a IA para ampliar caminhos, em vez de terceirizar a própria formação.
No meio de tanta automação, talvez educar volte a exigir isso com mais nitidez: formar gente que saiba usar ferramentas sem se tornar ferramenta.
Oscar sabia.
Talvez por isso tanta gente sentisse que estava vendo algo raro quando olhava para ele. Oscar não era só um grande jogador. Era alguém que vivia com inteireza.
Descanse em paz, Mão Santa. Obrigado por lembrar ao Brasil que grandeza tem menos a ver com vitrine e mais com aquilo que a gente decide não negociar.
Para educar melhor com IA
Abra uma conversa com uma IA e troque, por um instante, o pedido utilitário por uma pergunta mais profunda:
Me ajuda a perceber o que eu faço com tanto gosto que esqueço do tempo, continuo insistindo mesmo quando dá muito trabalho e não trocaria pelo caminho mais fácil?
Depois pergunte:
O que isso revela sobre o tipo de pessoa que eu sou ou que quero ser?
Você concorda? A máquina não responde por ninguém. Mas pode ajudar a iluminar o que já estava aí.

