
Na semana passada, o Brasil apresentou o primeiro caça supersônico fabricado no país. O F-39 Gripen saiu da linha de montagem da Embraer em Gavião Peixoto, com engenharia brasileira, 350 profissionais treinados na Suécia e uma mensagem clara: o Brasil é capaz de construir suas próprias máquinas sofisticadas de guerra. Somos o primeiro país da América Latina a dominar essa tecnologia, com muito orgulho.
Mas um caça é, no fim das contas, uma máquina de guerra. E a reflexão mais urgente sobre tecnologia militar em 2026 não é sobre o que somos capazes de fabricar. É sobre o que decidimos permitir que as máquinas façam sem um comando humano.
Há algumas semanas, escrevi nesta coluna sobre drones autônomos na Ucrânia. Um operador define o perímetro, mas quem escolhe o alvo é o algoritmo. Em outras palavras, o ser humano aponta a direção, mas é a máquina que decide quem morre. Aquela coluna terminava com uma pergunta sobre responsabilidade moral quando ninguém aperta o gatilho.
A Anthropic, empresa americana que desenvolve a inteligência artificial Claude, tinha um contrato de duzentos milhões de dólares com o Pentágono. O Claude operava em redes militares classificadas, mas a empresa mantinha duas condições firmes: sua tecnologia não poderia ser usada para vigilância em massa de cidadãos americanos ou para armas letais autônomas. Em fevereiro, o Pentágono exigiu acesso sem restrições, e a Anthropic disse não.
A consequência chegou rapidamente. Trump ordenou que todas as agências federais parassem de usar qualquer produto da empresa e a classificou como "risco à segurança nacional", rótulo que até então só havia sido aplicado a empresas estrangeiras como a chinesa Huawei. No mesmo dia, a OpenAI, criadora do ChatGPT, fechou acordo com o Pentágono para ocupar o espaço. A reação pública surpreendeu: 1,5 milhão de assinantes decidiram cancelar o ChatGPT e centenas de engenheiros de empresas concorrentes assinaram carta em apoio à Anthropic. Mas a resposta mais importante veio da justiça. Na semana passada, uma juíza federal bloqueou a ordem do governo numa sentença de 43 páginas. A frase mais forte da decisão explica que nada no estatuto americano sustenta a noção de que uma empresa pode ser tratada como adversária por expressar discordância.
É tentador transformar isso numa fábula simples: a empresa corajosa contra o governo autoritário. Mas a realidade é mais complexa... A Anthropic é uma empresa com interesses comerciais e é claro que a recusa teve consequências calculadas. Além disso, a mesma tecnologia que ela se recusa a entregar para armas autônomas já foi usada, segundo o Wall Street Journal, em operações militares reais. A linha entre o que é aceitável e o que não é continua sendo negociada, não resolvida.
O que importa para esta coluna não é eleger heróis. É reconhecer que a pergunta sobre responsabilidade deixou de ser filosófica e virou operacional. Quem constrói a tecnologia tem a obrigação de decidir o que ela não deve fazer? Ou essa decisão pertence exclusivamente a quem governa? Se, na semana passada, o fio destas colunas era o que escolhemos não ver, agora, o desafio é o que decidimos não aceitar. De quem constrói, de quem governa, de quem educa, e de quem, diante de uma ordem que ultrapassa os limites do aceitável, precisa decidir se obedece ou se recusa.
Em Gavião Peixoto, o Gripen dá o seu show na pista. A engenharia é real, a conquista é brasileira e a máquina impressiona. Mas nenhuma máquina, por mais sofisticada que seja, pode carregar em si a decisão moral e ética sobre o que é ou deixa de ser certo. Essa parte continua sendo trabalho de gente. E formar gente capaz de fazer escolhas difíceis é uma das tarefas mais importantes que nossa educação tem pela frente.




