
Pedi a cinco interlocutores que me definissem em uma frase.
O primeiro disse: “Educador por vocação, inconformista por natureza.”
O segundo: “Alguém que articula rigor, sensibilidade e visão de futuro.”
O terceiro listou meu currículo com datas e cargos.
O quarto fez o mesmo, com palavras ligeiramente diferentes.
O quinto me descreveu como “focado na interseção entre inteligência artificial e ética”.
Os cinco são inteligências artificiais que uso quase todos os dias. Acertam o que é público, mas nenhuma me conhece de verdade.
Toda semana, para escrever esta coluna, eu sigo um método. Pesquiso o mesmo tema em várias IAs, comparo respostas, descarto o que soa bonito demais para ser verdade e confronto o que sobra com o que sei e com o que consigo verificar.
Quando a Claude me diz uma coisa e o GPT diz outra, a dúvida aparece. Abro outra aba, volto ao parágrafo, risco uma frase, procuro a fonte. O texto vira um campo de atrito. Eu deixo as respostas se baterem até que algo mais sólido começa a aparecer. O resultado nunca é a resposta de uma delas. É o que consigo construir depois de ouvir todas e sustentar uma disputa entre elas.
Muita gente me pergunta qual é a melhor IA. O cenário mudou nos últimos meses: novas opções surgiram enquanto outras melhoraram muito. Mas a resposta honesta é: essa pergunta está errada.
O valor de usar mais de uma IA não está em encontrar a resposta certa mais rápido. Está no desconforto de perceber que elas discordam. Quando isso acontece, a certeza se afasta e eu sou obrigado a pensar. Se usasse uma só e aceitasse o que viesse, estaria terceirizando o julgamento para uma máquina que erra com frequência. Com várias, eu perco a certeza e ganho a responsabilidade de construir a minha perspectiva.
O desconforto não é um defeito do processo. Ele é o próprio processo.
Essa lógica não é nova. Antes das IAs, funcionava com livros, professores e jornais. Quem lia uma fonte achava que sabia alguma coisa. Quem lia três, percebia que precisava aprender mais. A diferença é que agora o confronto de perspectivas cabe no bolso e acontece em segundos. A habilidade exigida é a mesma de sempre: abraçar a complexidade em vez de fugir dela.
Para quem tem filho ou aluno usando IA, e a pesquisa TIC Kids Online 2025 mostra que 65% das crianças e adolescentes brasileiros já usam, o conselho mais útil não é “use esta” ou “evite aquela”. É: não aceite a primeira resposta. Pergunte de novo, de outro jeito. Compare com outras fontes. Se a resposta parece boa demais, desconfie. Se parece perfeita, desconfie mais ainda. E algo muito importante: não abra mão da sua voz.
Esta semana escrevi sobre coisas que escolhemos não ver.
Na terça, o que nossas escolas já sabem, mas preferimos ignorar.
Na quinta, o que os algoritmos fazem com a nossa raiva enquanto estamos desatentos.
Hoje, sobre como a primeira resposta de uma inteligência artificial pode parecer tão completa que dispensa o trabalho de pensar.
Se me obrigassem a me definir em uma frase, eu diria que sou alguém que tenta pensar devagar num mundo que recompensa a rapidez.
As IAs que consulto ampliam o atrito. Mas nenhuma delas pensa por mim.


