
Não tenho filhos. Tenho quatro cachorros e dois gatos que reinam sobre a casa com mais autoridade do que qualquer algoritmo. Mas tenho trinta e um anos de sala de aula. Comecei aos 17, como professor de inglês em um cursinho, com registro na carteira de trabalho e muito orgulho disso. De lá para cá, passei por escolas, empresas, secretarias de educação, centros de pesquisa, reuniões intermináveis e conversas longas com adolescentes tentando crescer em meio a um ruído constante. E tenho um irmão de 8 anos e sobrinhos que amo.
Minha posição sobre a proibição das redes sociais para menores de 16 anos nasce desse lugar: três décadas observando cérebros em formação que agora têm de disputar atenção com máquinas desenhadas para que ninguém consiga parar de rolar.
No último domingo, publiquei um artigo na Folha de S.Paulo, em coautoria com Claudia Costin, um texto defendendo essa proibição sob a ótica da política pública. Ali, falamos como formuladores de política. Aqui, escrevo como alguém que viu, muitas vezes, a mesma cena se repetir diante dos próprios olhos.
Em 17 de março, daqui a poucos dias, o ECA Digital entra em vigor. A autodeclaração de idade deixa de valer, contas de menores de 16 anos deverão estar vinculadas aos responsáveis, e a ANPD, agora agência reguladora, poderá aplicar multas significativas às plataformas. A lei já existe. O que está em disputa é se a regulamentação será apenas simbólica ou realmente capaz de mudar o jogo.
O Brasil não está isolado nesse movimento. Austrália, Portugal, França, Espanha, Itália, Dinamarca, países com histórias e culturas muito diferentes, caminham na mesma direção quase ao mesmo tempo. Esse tipo de convergência raramente nasce de pânico moral; costuma nascer de acúmulo de evidências.
E a evidência é incômoda. Neste ano, entidades médicas e psicológicas dos Estados Unidos deslocaram o foco do debate: o problema central não é só o tempo de tela, mas o design das plataformas. Rolagem infinita, notificações imprevisíveis, métricas públicas de validação social… Nada disso é neutro. São arquiteturas de engajamento pensadas para manter o usuário ali, mais um minuto, mais um vídeo, mais uma reação. O córtex pré-frontal, responsável por inibir impulsos e ponderar consequências, só amadurece plenamente por volta dos 25 anos. Estamos oferecendo a crianças e adolescentes um produto projetado para contornar justamente o freio que ainda está em construção.
Na terça-feira, escrevi nesta coluna sobre como a inteligência artificial está encurtando a distância entre decisão e disparo na guerra. Nas telas dos nossos adolescentes, a lógica é diferente, mas a estrutura é semelhante: o design reduz o intervalo entre estímulo e reação. Lá, o segundo de reflexão desaparece antes do tiro. Aqui, antes da rolagem.
Quem acompanha meu trabalho sabe que defendo o uso da tecnologia na educação, que escrevi um livro chamado O Professor Ampliado e que vejo na inteligência artificial uma ferramenta poderosa quando mediada por propósito formativo. Justamente por isso, não consigo tratar como equivalentes uma tecnologia orientada por adultos com intenção educativa clara e um produto de consumo cuja receita depende de capturar a atenção de cérebros ainda imaturos.
No carnaval, estava no sofá com meu sobrinho de dez anos. Ele me mostrou um vídeo, rindo. O polegar deslizou para o próximo antes que eu reagisse. Depois outro. Depois outro. O riso foi ficando automático; os olhos, fixos. Em poucos segundos, ele já não escolhia mais o que assistir. O fluxo escolhia por ele.
O cérebro dele ainda está construindo o freio que a máquina sabe contornar. Diante disso, impor limites não me soa como medo do futuro, mas como a decisão de devolver tempo a quem ainda está aprendendo a decidir.





